Antonio Roberto Mendes Pereira
Em muitas propriedades rurais os
desperdícios de recursos são enormes. A quantidade de recursos que a natureza
nos oferta todos os dias em todos os espaços é estrondosa, mas o nosso
arcabouço mental não nos permite perceber. Em algumas situações, o não uso é
por falta de conhecimento, em outros, estes recursos são trocados pelo convencimento
da mídia de usar os que precisam ser comprados.
Mas, independente de mídia ou não,
estes recursos são produzidos permanentemente pela natureza, e vale salientar
que o resíduo ou desperdício de um elemento vivo é recurso para outro ou
outros. Um resíduo que não encontra seu consumidor ou sua outra utilidade ou
função vira poluição ou lixo, e na natureza lixo é palavra que não existe. Esta
palavra foi cunhada pelos homens, por sinal racional de pouco conhecimento,
pois a partir do momento que os homens entendem um desperdício não como um
recurso e sim como lixo, mostra qual a lógica que é utilizada “O da não
sustentabilidade”.
Todo lixo deveria não ser chamado de
lixo e sim de desperdício ou resíduo utilizando a lógica da natureza, que
reaproveita tudo, e coloca novamente o desperdício no caminho de reuso, de
reutilidade, na retroalimentação de outro ser ou seres. Não se perde nada, daí
o pensamento de Lavoisier “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se
transforma”. Este pensamento deveria ser de fato levado a sério nas
propriedades, mas infelizmente além de não ser pouco entendido e não aceito por
muitos é ignorado em todos os sentidos. Quando se estuda ecologia ou a
disciplina meio ambiente aprende-se que a natureza utiliza permanentemente a
estratégia ou o padrão de ciclar tudo que já foi utilizado. Não é a toa que
existem os ciclos da natureza. Entre os mais importantes e conhecidos estão o da Água, do Carbono e do Nitrogênio, sendo que a Cadeia
Alimentar pode ser entendida como um Ciclo de Energia.
A vida na terra se desenvolve permanentemente através de uma
reciclagem constante. Os elementos são continuamente recriados a partir dos
átomos que circulam em cadeias biogeoquímicas. Morte, destruição e decomposição
são partes de um ciclo que possibilita novas estruturações vivas e não vivas.
Podemos comparar esta lógica natural com um jogo infantil
conhecido como “lego”, onde existem centenas de peças de encaixe de cores e
tamanhos diferentes, estas peças podem ser conectadas com várias outros, criando as mais diferentes formas e objetos.
Pode-se montar desde uma mesa até um avião, o que vale é a criatividade. A
comparação que quero fazer é como se cada peça do lego fosse um átomo ou uma
célula que podemos juntar formando novos elementos (seres) a partir da montagem
e remontagem.
E não podemos esquecer que quanto mais peças tivermos dentro das
propriedades, mais possibilidades têm de criar e recriar outras formas vivas.
Sabemos que toda comparação não é completa, não abrange tudo que se quer
ensinar ou passar. É meramente uma explicação com apelo didático para se fazer
entender. Agora imagine a quantidade de peças que você pode ter dentro da sua
propriedade, a partir da quantidade diversificada de plantas (biomassa), e dos
mais variados tipos de animais e microorganismos, e da água que se tem. Imaginem
como acoplar tudo isto criando estruturas cíclicas onde o desperdício de um, é
elemento para complemento de outro. A quantidade total de matéria do mundo é
constante e passa por ciclos através dos organismos vivos, e este ciclo da
matéria é movido pelo sol e facilitado pelo fluxo de energia. Esta
operacionalização é permanente.
A própria permacultura é a arte de conectar os elementos, e esta
conexão pode ser e acontecer em vários níveis. Desde as mais simples até as
mais complexas conexões. Pode ser uma conexão simples de elementos como também
conexão entre substâncias que compõe os elementos de forma mais complexa. Os
níveis podem ser os mais variados. A riqueza destas combinações enriquece os
ambientes, tornando-os mais estáveis e sustentáveis.
Os ciclos como podem ser chamados estas conexões, podem ser visto
como oportunidades de aumentar a sustentabilidade dos ambientes cultivados.
Esta sustentabilidade pode acontecer através do aumento da produção e da
produtividade dos elementos que compõe estas combinações. Logo, conectar-se é o
primeiro passo para compor um ciclo mais local. Os ciclos nos remetem a um:
·
Raciocínio
de aumento de produtividade;
·
De
eco eficiência
·
De
aumento de etapas;
·
De
mais degraus;
·
De
quanto mais lento mais produtivo

Toda propriedade permite a entrada de vários elementos e energia,
que na maioria entra na forma de fluxo, e que precisa rapidamente ser captada e
acoplada e integrada a ciclos. Quanto mais nicho de ciclos consegue-se fazer
internamente em uma propriedade mais o sistema torna-se sustentável. Mas, por
incrível que pareça os fluxos de matéria e energia entram nas propriedades e poucos
são acoplados em ciclos.
Entram e saem da mesma forma que entraram e às vezes até levando os
nutrientes e energia por onde passou.
Um sistema sustentável é
aquele que durante sua existência ele consegue armazenar, conservar ou gerar
mais energia do que aquela que foi necessária para seu estabelecimento e
manutenção.
AUMENTANDO AS ESTRATÉGIAS PARA QUE
OS CICLOS ACONTEÇAM
1. Para facilitar que estas
combinações cíclicas possam acontecer podemos fazer mão de um dos princípios de
design da Permacultura: Localização relativa, onde o lugar que vamos dispor aquele
elemento deverá gerar ao máximo possível de conexões com os demais elementos.
Um elemento é considerado que estar bem localizado quando ele consegue ter o
máximo de relações com os demais elementos que compõe o sistema. A simples
troca de lugar de um elemento pode aumentar consideravelmente o numero de
relações. Logo, os elementos vivos não podem ser estáticos;
2. A reciclagem de toda matéria
orgânica é uma ótima estratégia de acoplar elementos de fluxos em ciclos. Antes
de decidir como vai se reciclar a matéria orgânica que se tem disponível, é bom
verificar onde mais ciclos podem ser criados a partir do seu uso. Como exemplo,
fazer um composto ou fazer uma cobertura morta (mulching), quando se estuda
qual o caminho que pode gerar mais ciclos ou oportunidades de ciclos neste
exemplo, verá que: se optar pelo composto só terá adubo, que poderá alimentar
várias plantas; se optar pela cobertura morta terá um ciclo bem maior com um
menor uso de energia, pois primeiro não precisarei fazer o composto e segundo
são os serviços ambientais que esta prática pode me ajudar como:
·
Evita
o nascimento de muitas ervas;
·
Diminui
a evaporação de água e conseqüentemente o ressecamento do solo;
·
Depois
de decomposto servirá de adubo natural para qualquer planta;
· Evita
erosão, pois diminui e até evita o escorrimento de água de chuva.
Outro exemplo para aumentar a compreensão: O que fazer com os
restos de comida? Fazer composto ou dá aos porcos? Com certeza complementando a
alimentação dos porcos vou ter um maior numero de estágios cíclicos que vão se
acoplar em um nicho fechado. Lógica cíclica
- O porco come as sobras de alimento, gerando esterco, que pode ser colocado em
um biodigestor, que vai gerar gás, que servirá para cozinhar, iluminar e com os
resíduos deste biodigestor que é biofertilizante, poderei fertilizar outras
plantas que vão produzir alimento, onde parte deste será consumida pela minha
família e os resíduos vão poder novamente alimentar os porcos ou outros animais,
reiniciando um novo ciclo. E se formos espertos poderemos selecionar e separar
os resíduos dos alimentos, pois nem todo resto de alimento é consumido pelo
porco, logo terei outra sobra que poderá ser compostada. Assim, observe a
quantidade de caminhos possíveis que se pode criar com uma sobra de alimentos,
isto é transformar um fluxo em vários ciclos;
3. Tente identificar na sua
propriedade recursos que além da sua disponibilidade, o uso deles favoreça o
aumento deste recurso. Como exemplo, podemos frisar alguns: bambu, quanto mais
eu colho mais a touceira produz bambu novo. Com as pastagens poderemos utilizar
a mesma lógica. O uso dos animais na reprodução também é um recurso que quanto
mais se usa, mais aumenta. Com a identificação e uso destes recursos poderemos
aumentar o numero de ciclos, pois temos uma fonte permanente de biomassa e de
animais novos. Podemos aplicar esta mesma lógica para as informações e
conhecimentos que quanto mais se tem mais facilidade na tomada de decisão. Além
desta característica do primeiro recurso (aumentar com uso), podemos ainda
incluir nesta listagem recursos que não são afetados pelo uso como exemplo:
sol, cata-vento, etc. e também podemos agregar a esta lista os recursos que, se
não usados se perde como exemplo: sol, frutas madura etc;
4. Faça uma lista de todos os
elementos vivos (horta, pomar, água, animais, pastagens) e não vivos (edificações
e tecnologias) que compõe seu ecossistema cultivado, e logo após, promova uma
assembléia destes elementos, identificando ações para conectá-los. Por exemplo,
como conectar as galinhas a horta ou ao pasto e a água? E assim haja com os demais elementos, todos
devem encontrar sua cara metade, isto é um correspondente de combinação. Para
facilitar a montagem deste esquema estratégico pode-se fazer o seguinte:
Escolha um elemento vivo, por
exemplo, a galinha e agora responda as seguintes perguntas anotando as
respostas. Com certeza sabemos muita coisa sobre a galinha, pois ela esta
conosco a muito tempo, a sua domestificação já tem mais de 10000 anos. Então
responda: Quais as necessidades das galinhas? Qual será a função da galinha no
ecossistema? E qual a produção desta galinha neste agroecossistema? Vejamos a
seguinte listagem de possíveis respostas:
NECESSIDADE
|
FUNÇÃO
|
PRODUÇÃO
|
Água
|
Controlar insetos.
|
Ovos
|
Luz (produção de ovos)
|
Criar seus descendentes (pintos).
|
Carne
|
Abrigo (proteção)
|
Diminuir e controlar algumas ervas.
|
Penas
|
Espaço (movimentação)
|
Despertador biológico.
|
Metano
|
Companhia (reprodução)
|
Espanta cobras.
|
Calor
|
Areia para digeri alimentos
|
Limpam o ambiente.
|
Gordura
|
Dormir no alto (poleiro)
|
Dependendo da quantidade aumentam a temperatura dos
espaços.
|
Ossos
|
Alimento – verde, grãos e insetos
|
Embelezar o ambiente e contribuir na reciclagem de
elementos.
|
Esterco
|
Ciscar
|
Diversificar as oportunidades de comida na
propriedade
|
Pintos
|
Depois que analiso os elementos,
pergunto: como conectar este elemento com os outros? Como atender as
necessidades da galinha a partir do que tenho disponível? A necessidade
atendida de um deve ser o produto de outro. Quando estas necessidades não são
atendidas, preciso introduzir outro elemento neste sistema. E não posso
esquecer que quando não tenho um uso de um produto que não foi conectado ele
vira lixo, poluição no sistema. Logo, venho insistindo nesta frase “Quanto mais
conexões cíclicas vão sendo montada mais sustentabilidade vai ter meu agroecossistema”.
Vale apena frisar que estas conexões apresentadas anteriormente são as mais
fáceis de perceber, mas existe um numero ilimitado de conexões ocultas, que não
são percebidas, mas que estão acontecendo concomitantemente. Mesmo que não se
perceba é bom saber que elas estão acontecendo.
Devemos criar estratégias para
acontecer assembléias de elementos que pretende introduzir ou conectar com os
demais elementos.
Os elos de conexões para
operacionalização da assembléia de elementos são:
·
Energia
·
Nutrientes
·
Água
·
Alimento
Identifique quem mais recebe as
setas dos elos das conexões e quem menos recebe, se houver elemento que não doa
e nem recebe, este pode estar sendo um problema no sistema, pois seus resíduos
não estão sendo utilizados pelos demais e suas necessidades poderão também não
estar sendo atendidas, logo existe poluição e não desenvolvimento do elemento.
Precisa-se imediatamente retirar este elemento do sistema ou introduzir outro(s)
elemento que crie conexões com ele e com os demais. Quanto mais diversidade de
elementos existirem na propriedade maior é a probabilidade de aumento de
conexões cíclicas, aumentando como já frisado a sustentabilidade do ambiente e
da atividade. Não podemos esquecer que o padrão da natureza é de REDE, e as
redes são grandes arrumações de ciclos interligados. Um ciclo dentro do outro
indefinidamente para o micro e para o macro;
5. Outro princípio seguido pelos Praticantes da
Permacultura, e que pode contribuir para aumentar os
ciclos na propriedade é o seguinte: Cada elemento no ecossistema deverá cumprir
mais de uma função ou no mínimo um número não inferior a dois;
6. E a partir deste podemos pensar e
agir tentando identificar e aumentar o número de elementos reconhecendo e
listando as possíveis funções que este elemento deve estar executando no
agroecossistema. Quanto maior o número de funções mais combinações podem ser
realizadas. Como exemplo, podemos frisar: uma galinha poderá exercer várias
funções como exposta anteriormente, desde o controle de insetos até controlar
as ervas. Agora faça uma lista de elementos não vivos para que eles possam também
ser conectados aos elementos vivos contribuindo para criar micro climas e
espaços que ajudem a diversificar e aumentar o número de vida nos ambientes.
Outros exemplos podem ser montados a partir
também de elementos não vivos presentes nas propriedades, que poderá ajudar
ainda mais a esclarecer, só que agora com um elemento não vivo.
Em um prego podemos identificar várias funções
como: pregar, furar, riscar, pendurar. Se por acaso tenho identificado estas
funções significa que tenho ao meu dispor todas elas para qualquer
eventualidade;
7. Para que as plantas possam se
desenvolver satisfatoriamente bem, os nutrientes deve estar numa correlação
muito equilibrada, pois se aumentamos um deles poderemos desbalancear outros,
diminuindo desta forma o numero de ciclos que poderiam acontecer. Como exemplo,
podemos frisar um aumento exagerado de nitrogênio desbalanceia o nível e a
disponibilidade de cobre na planta. Uma relação perfeita também do
carbono/nitrogênio contribui enormemente para o aumento do número de ciclos que
influenciam diretamente na produção e na produtividade dos espaços cultivados;
8. Reestruture seu agroecossistema
cultivado para que o seguinte estoque de futuro esteja garantido por várias
gerações. Estes estoques são as chaves básicas para que uma rede de ciclos seja
iniciada e possam ir sendo incorporados e acopladas em ciclos cada vez maiores,
aumentando a sustentabilidade do ambiente. São eles:
· O
primeiro estoque que precisamos acumular é conhecimento, principalmente sobre
sistemas vivos e sua organização. Este é um grande estoque para o futuro, que
precisa ser ciclado com outros companheiros.
· Solos
férteis com alto teor de matéria orgânica sendo transformada em húmus;
· Sistemas
de vegetação perene ou permanente, especialmente árvores, produção de alimentos
e outros recursos úteis;
·
Corpos
e tanque de armazenamento de água em todos os espaços;
·
Edificações
com utilização passiva ou até completa da energia solar.
Como vemos a necessidade de ciclar as
entradas e os resíduos deve ser uma constante no planejar, no executar, no
gerenciar, no repensar, no divulgar. Todos estes verbos são de ações, sem elas
não se cria uma cultura de transformação. Por pequena que seja a propriedade ou
o espaço utilizado para produção que possamos aplicar ao máximo as idéias para que
aumente as conexões cíclicas. E lembrem-se tudo deve estar conectado a tudo. E
como dever de casa tente responder a seguinte pergunta tentando comprovar suas
aprendizagens a partir do texto:
·
Quantas conexões
estão acontecendo nesta imagem abaixo?
·
Monte o ciclo que
está presente no agroecossistema.
·
Sente falta de
algum elemento para aumentar o ciclo?
Pratique este exercício em várias
paisagens para se aperfeiçoar na visão de identificar e entender as possíveis
conexões explicita e ocultas que a natureza pratica em todos os espaços.
05 de julho de 2011
Muito bom! Parabéns por mais este ótimo texto.
ResponderExcluirdespertar essa visão dos ciclos e consumo consciente ajuda a equilibrar os danos ao meio ambiente,contanto que os seres humanos ponham em pratica todos esses conhecimentos!!!
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