Antônio Roberto Mendes Pereira
Que
cultura é esta que afirma a seguinte frase: “Comer folha é para coelhos e
lagarta”. Inicio este texto com esta reflexão e alguns questionamentos.
Porque
muitas pessoas pensam assim? O hábito de comer hortaliças cruas e outros
alimentos em classes mais populares não faz parte do hábito cultural, ou é
engano? Será que a quantidade de informação pesa neste comportamento? O que
esta atitude pode influenciar no meio ambiente e em especial nos recursos
naturais?
Na
permacultura a preocupação com a diminuição do gasto de energia deve ser uma
constante permanente, e para que isto aconteça se faz necessário repensar
vários dos nossos hábitos do dia a dia. Precisamos estar consciente que em tudo
que fazemos podemos economizar energia, só basta querer e criar estratégias e normas
para serem seguidas no cotidiano familiar.
Uma das
tarefas que aumentam consideravelmente o gasto de energia em todas as casas
independentemente do nível econômico é o COZINHAR. A cada dia se cria novos
pratos, são lançados novos cardápios, mas sempre todos seguem a mesma lógica do
cozinhar quase todos os alimentos. Até algumas bebidas se usa o fogo (conhaque
flambado) é claro que não é para cozinhar, mas o gasto de energia acontece. No
cozimento dos alimentos é utilizado desde os fornos de lenha até os de microondas,
mas esquecendo que muito das qualidades nutricionais dos alimentos vão ser
perdidas, volatilizadas. Muitas das vitaminas e até alguns minerais sofrem
transformações diminuindo sua ação nutricional durante o cozimento. Mas pela
busca do sabor paga-se horrores. Em muitos casos a energia investida para
preparar e cozinhar determinado alimento, às vezes não compensa, pois a energia
contida neste alimento é menor do que a que vou gastar para cozinhá-lo.
UMA
HISTÓRIA REAL
Retornando
de uma viagem de trabalho com um amigo, fui convidado por ele para hospedar-me
na sua casa por alguns dias na zona rural. Ao chegarmos à casa dele verificamos que sua esposa por não saber que
seu marido iria retornar alguns dias mais cedo, viajou com os filhos para casa
de sua mãe. Esse acontecimento não comum,
deixou seu esposo aflito, sem ação, ele se perguntava quem vai cozinhar para
nós, não era cultura dele cozinhar. E foi a partir desta acontecimento inesperado que ele teve que
repensar muito dos seus hábitos alimentares e da sua forma de preparar os
alimentos. Para diminuir sua preocupação na primeira manhã ao acordarmos pedi
para que ele me apresenta-se sua propriedade e os plantios desenvolvidos por
ele. Era um verdadeiro supermercado de produtos naturais, tinha de tudo, e me
ocorria a seguinte pergunta “Porque toda aquela preocupação?”. Estava tudo ali
e com uma grande vantagem, não precisaríamos cozinhar, sujando panelas e outros
apetrechos, além de diminuir os gastos com água. E aos poucos fui acalmando meu
amigo mostrando para ele o potencial alimentício in natura que sua propriedade
tinha. Este exemplo, fez a mim também dá uma enorme
guinada nos hábitos alimentares da minha família, que por incrível que possa
parecer já eram bem naturais. Aumentei a quantidade de alimentos que para ser
consumidos não precisam ser cozinhados. Posso comer a qualquer hora, sem ter
muito trabalho, era só lavar e comer.
AS
APRENDIZAGENS QUE PODEM SER INCORPORADAS PARA UMA ALIMENTAÇÃO MAIS
NATURAL -MENTE
Não estou
querendo com este exemplo levar os leitores a deixar de comer alimentos
cozinhados ou tornar-se vegetariano, mas a repensar as formas tradicionais de
dietas que pouco alimenta e raramente nos nutrem equilibradamente, simplesmente
são consideradas deliciosas. Não queremos negar que alguns dos alimentos depois
de cozinhados são verdadeiras guloseimas impossíveis de se recusar comer.
Precisamos
querer erradicar o pensamento de que para poder viver necessita-se saber
cozinhar. Podemos sim, viver com pouco uso desta pratica humana, o que tenho que
reaprender é a comer bem, e se alimentar de forma saudável e equilibrada. Os
nossos antepassados se alimentavam basicamente de alimentos crus.
Podemos
iniciar este processo fazendo uma lista dos alimentos do cardápio seguido pela
família. Verificar destes, quais podem ser ingeridos sem ter que passar pelo
cozimento ou pelo o assar. Depois verificar como substituir alguns dos demais
por outros que não necessitem também passar pelo cozimento. Se na nossa
alimentação diária pelo menos 50 % dela fosse de alimentos que possam ser
ingeridos in natura, seria maravilhoso para nosso corpo e para o meio ambiente.
Não divulgo e nem defendo o não comer carne, mas com certeza com uma dieta onde
metade do que vamos nos alimentar é consumido in natura, vai levar nossos
corpos a outro grau de nutrição. O vegetarianismo é uma opção para algumas das
nossas refeições ou pelo menos parte dela.
Não podemos
esquecer que o único ser que cozinha para comer é o homem. Os hábitos
alimentares que são seguidos de forma cultural demandam quase sempre gastos de
muita energia. Além do mais, muitos
destes alimentos têm na sua composição de forma agregada, conservantes,
antioxidantes, acidulantes e corantes que dão sabor e cheiro imitando o sabor e
o aroma dos alimentos naturais. Todos estes
agregados na sua maioria são produtos artificiais que vão compor parte dos
alimentos comercializados, além de ser na sua maioria, cancerígenos. Muitos
temperos são colocados para poder trazer sabor como: doce, salgado, azedo,
amargo, perdendo-se o sabor natural dos alimentos. No desenho animado Ratatouille
um ratinho metido a cozinheiro busca incessantemente o sabor dos alimentos. As
combinações são feitas em busca de acentuar o sabor. Mas, sempre as misturas de
sabores com os condimentos são de praxe.
Este texto
busca também incentivar a busca para sentir o verdadeiro sabor dos alimentos na
sua forma mais natural possível, do jeito que a natureza produz. Se houver
misturas foi ela quem fez, e vale salientar que tenho certeza que este tipo de
alimento irá me alimentar, me nutrir, me enriquecer e não me permite engordar,
me dá as energias necessárias e principalmente no período certo.
O
trabalho e a economia doméstica com a utilização dos alimentos na sua forma
natural vão ajudar a reduzir pela metade o tempo da manipulação e com isto
ganhar horas de lazer adicionais e a economia gerada serão uma fonte de alegria
para todos. Veremos mais pessoas com o corpo esbelto, o porte ereto, o andar
flexível, a pele fresca, os dentes brancos e fortes, e os cabelos vigorosos e
brilhantes. Com o corpo saudável, nossos pensamentos negativos se transformarão
em pensamentos positivos e contribuirão para o grande progresso cultural que o
mundo aguarda ansiosamente.
Os alimentos
de estação são um presente espontâneo da natureza. Parece que ela sabe que vou
necessitar e prontamente já esta me ofertando, de graça, basta ter um pequeno
espaço de terra para que ela possa se prontificar nos presenteando com
quantidade e qualidade. Imagino que o leitor já deve ter observado que
normalmente nos resfriamos ou até gripamos nas mudanças repentinas do clima,
entre o período seco e o período das águas (inverno) e rapidamente a natureza
nos oferece uma proteção natural, a mais pura vitamina C dos limões, laranjas,
repolhos, couves entre outros.
Em muitas
casas, as frutas não são mais frutas são polpas, noutras a fruta foi
substituída por misturas de pó com cor e sabor artificial. A fruteira na
cozinha é de enfeite, todas de plásticos ou gesso.
O
colher para comer deveria ser um exercício diário em todos os lares. Exercício
este que pode nos colocar em permanente contato com a natureza. Esta conexão é
necessária, precisamos voltar a pisar o solo, sujar as mãos e a boca quando
chupamos uma manga, descascar uma laranja fazendo uma grande tira com sua casca
e até guardando a mesma para um chá mais tarde. A procura pela fruta madura, ou
outro alimento no pomar ou no entorno da casa é um exercício que faz bem ao
espírito, a cabeça e ao corpo. Voltar em alguns momentos do dia a ser primata,
a ser coletor e se alimentar como os passarinhos quando encontra uma fruta
madura ainda no pé. Esta atitude não é perda de tempo como muitos podem até
pensar, tente fazer e veja os benefícios. Isto sim “é ganhar tempo de vida”.
Vou listar
uma série de alimentos naturais que podem ser colhidos e ingeridos sem passar
por nenhum processo de transformação a não ser a lavagem:
FRUTAS
|
FRUTOS
|
VERDURAS
|
GRÃOS
|
TUBERCULOS
|
MEL
|
PEIXES
|
Abacate,
banana, laranja, jaca, manga, jambo, mamão, melancia
|
Tomate,
pimentão, pepino, quiabo, pimenta
|
Alface
coentro, repolho, couve, acelga, maxixe, couve flor, amarantos
|
Ervilha,
milho verde, algumas variedades de feijões
|
Beterraba,
cenoura, nabo, rabanete
|
Mel de
melíponas, mel de abelha Apis
|
Sushi, sashimi
|
Este rol acima é
só alguns, de uma lista que pode se estender a partir do paladar individual ou
coletivo. É como se diz no dito popular “Gosto é uma questão que não se discute”,
pode mudar de pessoa para pessoa, de família para família, de uma cultura para
outra. Tenho certeza que com tempo e pesquisa encontrará outros alimentos que
podem ser saborosos e comidos da forma mais natural, do jeito que a natureza
nos oferece.
Existem no
mundo cerca de 150.000 espécies de plantas comestíveis. O homem domesticou mais
de 1.500 espécies, porém atualmente nos alimentamos com basicamente 30 espécies
vegetais cultivadas. Tente fazer você uma lista dos alimentos que fazem parte
da sua dieta diariamente e terás uma surpresa. Verás como é pouco nossa
diversidade alimentar.
FAMÍLIAS E SUAS DIETAS
(observe a quantidade de alimentos in
natura e compare, quem se alimenta melhor?)
Esse
costume de não querer cozinhar pode até parecer estranho e não muito viável,
porém, a verdade é que essa nova forma de se alimentar pode ser bastante
vantajosa, seja para quem quer emagrecer ou aproveitar, da melhor maneira, os
nutrientes dos alimentos.
Os
alimentos frescos contêm o máximo valor nutritivo. Esquentar, secar, armazenar,
fermentar e conservar reduz muitas vezes em 100% esse valor". Um bom exemplo, a favor da
teoria do comer cru é o do pimentão, rico em vitamina C, se for cozido, perde
100% da riqueza desse nutriente.
Chamo
os alimentos crus de alimentos vivos, ao contrário dos alimentos cozidos, que
considero alimentos mortos. Devemos cuidar para que os alimentos não contenham
substâncias que contrariam a química do nosso organismo, para que os resíduos
não fiquem retidos por muito tempo e apodreçam no intestino grosso. Portanto, o
melhor alimento é totalmente natural — não passou por nenhum tipo de
processamento. É preciso acrescentar ao nosso cardápio uma grande quantidade de
alimento vivo ele é muito mais fácil de digerir.
É
bom lembrar que quando optamos por incluir na nossa dieta muito mais alimentos
crus, estes precisam ser produzidos organicamente. A não presença de substâncias
tóxica é de fundamental importância. A natureza parece que nos convida para ser
sempre mais natural. Uma atitude natural convida a outra, este é o grande
trabalho da natureza sempre conectar, sempre combinar, sempre juntar. Saber de
onde vem e como foi produzido o alimento que estamos comendo deve fazer parte
da nossa cultura. O rastreamento deveria constar no rótulo de todos os
alimentos que estão expostos a venda nos mercados, era o mínimo que deveria
ter. Esta rastreabilidade nos deve trazer informações não só nutricionais, mas
econômicas, sociais e ambientais. E quem sabe trazer também informações da
melhor forma de conservar, e preparar o mais natural possível (receitas de
preparo e consumo natural).
A
defesa pelo meio ambiente passa necessariamente pela nossa forma de se
alimentar. Repense sua alimentação, não precisa ser radical ou inflexível, mas
adéque sua dieta a uma forma mais natural, mais branda, mas colorida
naturalmente. Que seu espaço de armazenamento de alimento seja primeiro na
própria planta e depois se tiver que conservar que este espaço seja assim e não
a da imagem do lado direito.
A
modernidade alimentar já vem ultrapassando os limites do cozinhar, e agora vem
nos remetendo à comida pré-pronta, só para aquecer, como se não bastasse os
fast food. Todas as facilidades são criadas em prol do aumento do consumo e da rapidez.
E
não esqueça, que toda facilidade aumenta o consumo, isto é, o mercado nos oferece
facilidades para encontrar tudo em vários lugares, onde o único empecilho para não
ter é a falta de dinheiro. Toda facilidade do sistema nos remete ao não fazer e
sim ao comprar. Comprar para vestir, comprar para comer, comprar para ter... Sempre
comprar, comprar, e cada vez mais facilidades são criadas, chegando a propostas
de não plante eu lhe vendo, não cozinhe lhe servimos pronto é só esquentar.

E
a partir deste comportamento de diminuir ou até evitar ir às compras, percebo
que muitas coisas que antes se comprava, eram insumos totalmente desnecessários,
consegue-se viver sem eles. Reduzindo as necessidades reduzo o consumo. Estas três atitudes de:
1.
Produzir o mais natural possível;
2.
Aumentar o consumo de alimentos crus;
3.
Diminuição da ida ao mercado.
São
atitudes de um grande potencial de mudança na cabeça, na alimentação e na
economia de uma família.
Não
torne toda e qualquer coisa uma necessidade, pois de outra forma o teu consumo
irá ser cada vez maior. Pense sempre no valor real de uso das coisas e não no
valor do status, do ter por ter. A sustentabilidade é um estado pretendido por
todos, mas mesmo que você não tenha conseguido ainda alcançar a tão pretendida
sustentabilidade não se desespere o que importa é estar no caminho. Pense
nisso!

Uma dica ou sugestão que pode ser
testada por você é produzir brotos.

Como fazer
brotos:

2. Deixe de molho por uma noite para
despertar o germe, que está adormecido.
3. Cubra o vidro com um pedaço de
filó, prendendo com um elástico. Despeje a água e enxágüe bem sob a torneira.
4. Coloque o vidro inclinado num
escorredor com a boca para baixo.
5. Enxágüe
duas vezes ao dia. Os brotos estarão prontos para comer após três a oito dias.
Acrescentem em saladas, sucos, sanduíches, use sua criatividade!
Obs.: O
broto de trigo pode ser deixado por mais tempo até virar grama e aí ser acrescentado
ao suco como fonte de clorofila.
E jamais esqueça: O
fato de estar ingerindo uma dieta rica em nutrientes não significa que a
nutrição esteja ocorrendo de forma adequada. O organismo se nutre daquilo que
digere e absorve e não daquilo que comemos.
29
de junho de 2011
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