Antônio Roberto Mendes Pereira
Um dos processos que dão sustentabilidade no tempo as
propriedades é a segurança de nutrientes. O sistema de produção e ou manejo
dado às propriedades levam o solo a uma perda constante de fertilidade,
remetendo a economia da propriedade a safras cada vez menores e os produtos com
baixa qualidade biológica e de péssima aparência. A busca por rendimentos
sustentados deve ser freqüente e não de rendimentos que empobrecem
continuamente o solo e a propriedade.
No sistema de produção utilizado pela maioria dos produtores
varias são as técnicas que levam a esta perda de fertilidade. Várias destas
práticas estão culturalmente entranhadas no manejo utilizado pelos produtores.
Muitas delas são realizadas imaginando-se que aquela pratica enriquece o solo. Vários
produtores mesmo tendo informação que a operacionalização daquela prática
empobrece o solo, continuam fazendo dando as mais diversas explicações para
continuar a realizar. Em muitas conversas informais que tive com vários
produtores percebe-se a certeza empírica de que estão fazendo a coisa de forma
correta, mas quando indagado, questionado, normalmente dão as seguintes
respostas ou desculpas para o uso continuo:
·
Uso a queimada porque é mais fácil e mais barato
para limpar a área a ser cultivada;
·
As cinzas enriquecem o solo fazendo com que as
plantas cresçam rapidamente e bem verdinhas;
·
A queimada mata muitas das plantas que iriam
nascer para disputar com as plantas do roçado;
·
O preparo da área e do solo se torna mais fácil
e ágil;
·
Meu pai sempre fez desta forma e lucrava e
conseguiu nos criar.
·
Como se percebe existe toda uma lógica para o uso do fogo
para o preparo da área e do solo. Para se desconstruir uma maneira cultural de
se fazer determinada atividade, não é fácil. É a maior luta que a assistência
técnica enfrenta. O não sucesso em muitos casos da não mudança de atitudes é
por que a cultura fala mais forte, impor mudanças radicais deslegitima o que
se aprendeu antes com os pais e com os avôs. É de uma forma indireta negar a
sabedoria dos seus parentes mais próximos. A certeza que estão fazendo correto
é o alimento da cultura. Em várias formações e capacitações ministradas pelo
SERTA (Serviço de Tecnologia Alternativa, entidade na qual trabalho), onde tive
várias oportunidades de ser o educador que estava ministrando todo processo
formativo, sempre percebi as resistências dos produtores diante dos
questionamentos. Percebi que uma boa didática também não muda a cultura,
precisa-se de algo mais. Com certeza o fazer, o testar e o colocar em cheque o
que se sabe ainda é a melhor maneira de se conseguir as transformações
necessárias.
A busca por resultados imediatos é outra forma que o sistema
capitalista enraizou na cultura das pessoas, onde se deve aumentar a área plantada
para aumentar os rendimentos diminuindo o tempo para se conseguir esta façanha
tecnológica e produtiva. E os produtores não percebem que a natureza tem seu
tempo, tem sua forma de fazer. Cada área tem suas capacidades e limites
próprios de atender, e quando se excede estes limites os resultados são
desastrosos. Em muitos casos super-alimenta os pais e empobrece os filhos,
comparação com os resultados produtivos conseguidos exigindo do solo ao máximo.
O solo é um grande depósito de minerais que é à base da
alimentação das plantas, devemos utilizar estes minerais da melhor forma
possível para que não venha faltar para as demais gerações de plantas e dos
filhos que delas vão se alimentar.
Mas, além dessas práticas que corroboram com a perda da fertilidade
dos solos existem outras que precisam ser estudadas, compreendidas, analisadas
e postas em prática para que as perdas de fertilidade sejam as mínimas
possíveis. Vejamos:

O solo deve ser a caixa d’água que acumula a água para
depois ir distribuindo a partir das necessidades da fauna e flora que vive no
solo. E normalmente esta água que não se infiltrou escorre levando com ela
muitos kg de nutrientes, carreando para outras áreas até outras propriedades
empobrecendo a propriedade em questão. E vale salientar que quanto mais forte a
chuva, mais nutrientes vão embora e mais rápido esta área se tornará pobre e
improdutiva.
A FORMA DE PLANTAR – Em uma capoeira grossa ou em uma mata,
as plantas nascem aleatoriamente, não nascem em linhas. O jogo de luz, água e
nutrientes é que cria a oportunidade para que uma determinada planta ou plantas
venha a germinar e crescer. A lógica utilizada pela natureza é diferente, os
desencontros entre as plantas é uma forma que a natureza utiliza para que toda
área seja utilizada. Não pode existir área na natureza sem vida em abundância.
O tempo inteiro a vida quer mais vida, todos os espaços são ocupados não
permitindo que a água escorra. A força dos pingos das chuvas no primeiro
estágio é amortecida pela copa das grandes árvores, esta água vai escorrendo
pelos galhos e troncos e folhas e chegam ao solo que deve estar coberto por uma
camada de matéria orgânica em decomposição que rapidamente absorve toda esta
água facilitando a sua captação e armazenamento no solo e seu excesso no lençol
freático, para futura utilização. Mas muitos produtores plantam em áreas
declivosas nunca imitando a natureza, mas sempre em linhas retas e na sua
maioria a favor da descida, do escorrimento das águas, facilitando a transferência
de fertilidade que em muitos casos se transforma em perda de fertilidade para
aquela área ou propriedade.

Todo solo tem um banco de sementes com uma grande variedade
de plantas, e a função de algumas destas plantas é repovoar rapidamente as
áreas expostas sem vegetação, cicatrizando as feridas causadas e deixadas pelo
manejo errado. Na sua maioria são plantas que tem um rápido crescimento e muito
vigorosas, desenvolvem-se em pleno sol, são muitos resistentes, e se reproduzem
facilmente, além de ter um ciclo de vida curto preparando a área para as
próximas plantas do processo de sucessão natural ou cultivado. Logo, uma capina
feita no momento errado acompanhado de uma queimada dos restos é com certeza
uma perda de fertilidade para o roçado. Até o próprio nome diz roçado, quer
dizer limpo, sem plantas daninhas, esta cultura de não entender a importância
destas plantas e não saber manejar as mesmas em favor do sistema é uma falta de
conhecimento de como se dá os processos naturais de sustentabilidade da área
que se esta cultivando.
PERDA DE FERTILIDADE PELA VENDA DOS PRODUTOS – A planta para
poder crescer necessita retirar os minerais do solo e alguns do ar. Todos estes
nutrientes retirados estarão presentes na sua biomassa. Folhas, caule, flores e
frutos são os resultados da fotossíntese, e na composição de cada parte da
planta estes minerais estão presentes, uns mais outros menos.
A colheita é uma forma de empobrecer o solo desde que pós
retirada e consumo destes minerais não retornem ao solo através da ciclagem e
ou reciclagem dos mesmos. O retorno ao solo da palhada da colheita e das fezes
é uma forma de diminuir as perdas de fertilidade para outras áreas. Se de uma determinada
área plantada colheu-se 10 toneladas de produtos, pergunta-se como fazer para
devolver 10 toneladas de matéria orgânica para o solo, para que a mesma
quantidade saída seja a mesma quantidade de entrada, equilibrando o sistema?
Esta é uma equação que permanentemente deve preocupar os agricultores, pois de
outra forma toda vez que colher e vender estarão empobrecendo sua propriedade,
logo sendo um caminho certeiro para a não sustentabilidade do seu
agroecossistema. Uma grande produção deve significar uma grande volta de
nutrientes para o solo, para que as perdas sejam equilibradas com as entradas.
O sistema natural funciona de uma forma muito perfeita onde
tudo que sai entra novamente fazendo com que todo o ambiente esteja em
permanente ciclagem, nada fica guardado tudo tem uso freqüente e permanente e
tudo volta ao solo reafirmando a frase de Lavoisier “Que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma e
volta ao seu estado inicial”.
Diante de todas estas
afirmações anteriores surge a seguinte pergunta:
Quais são os
elementos de entrada do sistema natural e cultivado e como minimizar ou até
evitar as saídas sem volta ou sem retorno?
·
O SOL NOSSO DE CADA DIA - A primeira grande entrada
generosa da natureza é o sol. Todos os sistemas vivos precisam de energia para
mexer, puxar, moer, morder, comer, correr, ventilar etc. E nós seres humanos
modernos para termos estas energias pagamos por ela (volts entre outras
medidas). Mas, a generosidade da natureza nos dá de graça a energia solar, e
muitos de nós não sabemos como transformar toda esta energia em nosso favor.
Muitos produtores não sabem como transformar energia luminosa em energia
química, e mais uma vez a natureza nos presenteia com as plantas e sua
capacidade de fazer fotossíntese, transformando energia luminosa em comida, em
biomassa. Não se percebe muitas vezes que quanto mais plantas mais energia
acumulada na propriedade. As plantas são verdadeiras baterias de transformação
e acumulação de energia solar. Mas achamos melhor arrancá-las e queimá-las,
como somos inteligentes não! Diante do exposto percebe-se que a primeira grande
entrada no sistema é a energia solar, deixe-a agir produzindo bateria e
baterias para seu agroecossistema e quando necessitar utilizar estas baterias
tenta devolver o mais rápido possível insumos naturais que fizeram parte desta
bateria para o ambiente para que mais uma vez a natureza possa te ajudar a
produzir mais baterias quem sabe até maior da que você utilizou.
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AS PLANTAS LEGUMINOSAS – É outro grande presente
da natureza poder ter plantas que através da sua simbiose com bactérias
conseguem captar nitrogênio que está presente no ar e acumulá-lo no solo
disponibilizando para algumas plantas que necessitam mais deste elemento,
contribuindo para o aumento da produção da área. Não podemos esquecer que só se
aumenta a fertilidade da área de forma natural aumentando a quantidade de vida
da mesma.
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AS TROVOADAS – As chuvas de trovoadas também
enriquecem o solo, através das descargas elétricas dos relâmpagos. As descargas
elétricas nas chuvas de trovoada provocam a síntese do azoto atmosférico,
formando ácido nítrico, que, com a chuva é precipitado no solo, formando
nitratos, procurados pelas plantas. Os estudos sobre o assunto, realizado na
França, avaliam em cerca de 40 kg de ácido nítrico, precipitado do ar, por
hectare, em um ano.
Portando na agricultura, as chuvas de
trovoada são muito benéficas, pois ajudam no enriquecimento do solo. É
facilmente percebido quando depois de uma chuva de trovoada com relâmpagos as
plantas têm um rápido crescimento em poucos dias.
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AS ENTRADAS NA PROPRIEDADE DE OUTROS ALIMENTOS –
É outra forma de aumentar o acúmulo e compensar as saídas de nutrientes através
das colheitas vendidas. A troca de alimento por outros alimentos é com certeza
uma maneira de compensar as saídas, desde que aconteça a reciclagem destes
produtos. Pois em muitas propriedades estas entradas alimentam mais por falta
de reciclagem as sobras se transformam em lixo que vão poluir os ambientes.
Repense o que se faz com o lixo orgânico da sua propriedade tanto o que você
produziu e o que você trouxe de fora.
Uma entrada bastante utilizada pelos produtores para compensar as perdas
é através da compra de esterco de animais para adubação, mas de forma direta
esta é uma solução insustentável quando estamos falando em agricultura
sustentável.
·
BOMBEAMENTO DE NUTRIENTES – Existem sistemas
radiculares de algumas plantas que tem a capacidade de absorver minerais que
estão em camadas mais profundas do solo e que estão indisponíveis para a
maioria das plantas. Estas absorvem, processam através da fotossíntese e em
determinados momentos soltam suas folhas que caem no solo devolvendo parte dos
minerais que foram captados disponibilizando agora estes minerais na camada
mais superficial para a maioria das plantas. Estes minerais não seriam
utilizados nem tão cedo, mas através deste bombeamento aumentou-se a
fertilidade do solo agrícola. Este processo pode ser feito também podando estas
plantas, que também podem ser plantadas com esta intenção a de bombear
nutrientes.
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O PODER DO TRANSFORMAR – A reciclagem é outra
forma de aumentar as entradas aumentando a fertilidade das propriedades.
Transformar água em urina e urina em adubo e adubo em minerais é simplesmente
fantástico. Uma pessoa elimina aproximadamente 550 Litros de urina por ano,
dependendo da quantidade de líquidos que ingere, do clima etc. Deste modo, a
quantidade excretada de nitrogênio por pessoa por ano estará entre 1,65 Kg –
3,85 Kg, usando os valores acima. Se a demanda de nitrogênio em um
cultivo/gramado etc. é de 100 kg/ha e a concentração de N na urina é de 7 g/Litro
de urina, uma pessoa pode fertilizar 385m2 (1,5 L de urina por m2), se
apenas uma colheita é feita por ano. Se existir uma restrição no tamanho da
área, normalmente é possível aumentar a fertilização de três a quatro vezes
(usando-se assim até 6 Litros por m2) sem causar nenhum efeito
negativo nos cultivos ou ao meio ambiente. Isto é uma das formas do poder da
transformação.
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O ESVERDEAMENTO DAS ÁGUAS – O esverdeamento de
água é outra maneira de aumentar as entradas de nutrientes. A fertilização da
água com esterco permite a proliferação de micro algas dando a coloração
esverdeada a água, e esta água é um biofertilizante natural muito poderoso.

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A ÁGUA DE ESCORRIMENTO DE OUTRAS PROPRIEDADES –
É um processo que não devia acontecer, mas caso aconteça e se puder captar a
mesma para a nossa propriedade é uma entrada a mais de nutrientes, pois na sua
maioria estas águas vêm carregando parte de solo agrícola, e consequetemente
estas águas possuem muitos minerais na sua composição que poderá ficar a
disponível para os seus cultivos, desde que bem planejada a entrada e captação
destas águas.
Percebe-se claramente que a cultura ainda é um dos grandes
limitadores para que se faça uma agricultura mais ecológica. A ecologização da
população é um processo lento e necessita-se iniciar esta mudança através dos
mais jovens. Mas não podemos esquecer que estes jovens são educados pelos
adultos que na sua maioria tem uma cultura em muitos casos antinatural. A
cultura vivenciada por muitos adultos utilizam várias práticas vão de encontro
ao meio ambiente, e justamente estas práticas e formas culturais vão sendo
perpetuadas de geração em geração, como fazer para quebrar esta perpetuação? Se
não envolvermos a escola neste processo é muito difícil que esta mudança venha
a ocorrer. Toda mudança só se materializa no fazer, no procedimento “mudar
fazendo, praticando e ensinando durante a execução é o caminho” logo FAÇA ALGO,
o que esta esperando.
Roberto parabens! mesmo a distancia vc tem contribuido grandemente para nossa formação !!!! obrigado !!!!
ResponderExcluirDicas muito importantes rsrs. Obrigado
ResponderExcluirMuito bom!
ResponderExcluirMuitos parabéns e continue a mudar o mundo!
Abração
foi da hora o texto desperdicio de fertilidade do solo
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