sábado, abril 7

Meteorologia natural no comportamento da paisagem - Entendendo os sinais da natureza

Antônio Roberto Mendes Pereira 

A necessidade de conhecer e entender a natureza se confunde com a trajetória da história do homem. Conhecer os fenômenos para diminuir os riscos, as perdas, prever o que pode acontecer, sempre fez parte da história antiga e a de hoje. A modernidade por mais que se atualize e se modernize sempre vai estar à mercê da probabilidade. 

A incerteza é um dos princípios que rege a natureza, logo, ter certeza absoluta, e afirmar as verdades é um risco que se corre, quanto mais conheço de perto o objeto do conhecimento mais perco a visão do distante e do todo. 


A Natureza é uma arte desconhecida. É acaso cuja direção ninguém conhece. É concordância e discordância cuja harmonia foge à compreensão dos indivíduos. O mal da parte é o bem do todo. A Natureza é um ambiente que o Homem tenta conhecer e dominar desde o início dos tempos. E não consegue. Pela simples razão de que ele é e faz parte da Natureza. 

Este texto não quer ir de encontro aos conhecimentos científicos da meteorologia que através de muitos dados, e o uso de muitos equipamentos tentam anunciar com antecedência as previsões climáticas. Mas, também quer mostrar que a experiência prática a partir de observações cotidianas popular também produziu uma série de informações que preanunciam muitos fenômenos naturais, como seca, chuvas, ventos, escassez entre outros, e que precisam ser conhecidas e consideradas. 

O primeiro tem como base a observação permanente da natureza através de equipamentos, e o segundo utiliza como base a prática observativa da natureza, através da experiência acumulada e que foi passando de pai para filho através das gerações e da prática cotidiana, de erros e acertos. 


A agroecologia como ciência, tenta conectar todos estes conhecimentos, tentando facilitar o entendimento da natureza e a partir deste, facilitar a tomada de decisões nas propriedades em relação às previsões. 

Durante centenas de anos a orientação climatológica era norteada pelos astros e pelo comportamento dos animais e vegetais. Todas estas observações eram feitas pelos seres humanos a partir da observação destes fenômenos e comportamentos. Mas, o homem como um ser biológico ainda não demonstra através dos seus hábitos naturais e intuitivos experiências da climatologia na suas atitudes, necessitando observar outros seres biológicos e o comportamento dos astros. 

A ciência moderna para ler a climatologia monta estações meteorológicas onde são coletados dados para análise do tempo. Encontram-se equipadas com aparelhos de medição das variáveis climáticas. Os seus dados são utilizados ainda para a previsão do tempo. Atualmente, por meio de programas de computador, integram-se os dados coletados, permitindo a sua apresentação através de TV, rádio e jornais. Não podemos esquecer que a afinal de contas, a meteorologia evoluiu de observações da natureza, como as que são feitas pelos agricultores. 

Uma estação típica apresenta os seguintes instrumentos de medição: 

§ Termômetro para medir as variáveis da temperatura; 
§ Barômetro para medir as variáveis da pressão atmosférica; 
§ Higrômetro para medir as variáveis da umidade relativa do ar; 
§ Anemômetro para medir as variáveis da velocidade do vento; 
§ Biruta ou manga de vento para indicar a orientação do vento; 
§ Piranômetro para medir as variáveis de insolação; 
§ Heliógrafo para medir a duração da ação do Sol; 
§ Pluviômetro para medir a quantidade de precipitação pluviométrica. 

Outros dados passíveis de obtenção são o alcance visual de pista (visibilidade), altura de nuvens até aos 1500 metros, cobertura de céu nublado, nomeadamente para fins de navegação aérea. 

Todos estes instrumentos é a base do homem para poder fazer as previsões do tempo, sem estes instrumentais o homem moderno não teria como fazer estas previsões a não ser que utilize o conhecimento ancestral através da observação empírica da natureza. 



OS PROFETAS DA CHUVA 

É assim que são conhecidos os sertanejos especializados em prever a chegada da estação chuvosa através dos sinais da natureza. Estes são grandes observadores da natureza, buscam o detalhe, são grandes olheiros, atentos aos comportamentos dos animais, dos insetos, da posição dos corpos celestes como a lua e de muitos outros. Estes fazem suas previsões a partir de toda esta gama de observações. 

Mas, não dá para dizer se “esse conhecimento empírico” tem potencial porque não há um conhecimento único. Existem diversos métodos populares de prever o clima. Enquanto alguns profetas fazem prognósticos baseado na interpretação de sonhos, outros observam o comportamento dos insetos e animais, e tem até quem observa estrelas e a posição da sombra do sol durante a estação seca. Alguns desses métodos têm valor de fato, e deveriam ser mais bem estudados no mundo inteiro. 


PROFETAS DA CHUVA “Quando o juazeiro flora, em novembro, é sinal de inverno tardio.” 

“Em comunidades que sofrem com a seca, o papel desses personagens adquire um caráter político, de organização da população para a produção em torno de suas previsões” 

Esta é uma das mais antigas tradições agrárias da civilização humana. Guardam-se na memória muitas práticas e experiências, guiando a vida de muitas pequenas comunidades. Elas ainda garantem uma observação permanente, tenho receio que estas possam ser esquecidas e totalmente substituídas pelas previsões meteorológicas cientificas, perdendo todo este poder observativo empírico, deixando para que os outros observem, e se perda todas estas práticas naturais e intuitivas. Precisamos sim aumentar este poder observativo da natureza que nos cerca e que guia os fenômenos naturais. 

Ultimamente, os profetas estão desaparecendo, uma vez que seus filhos não se interessam em levar adiante esse conhecimento adquirido dos seus avôs. E como diz um desses: “Eu nasci e sempre morei no sertão, daí a gente reúne a experiência”, conta Erasmo, um dos Profetas da chuva do sertão Cearense. “É uma coisa que a minha avó sabia e ensinou prá minha mãe que ensinou prá mim e assim vai.” 

Quando esses profetas vão falar, não o fazem de forma direta, mas utilizam expressões que estão presentes no imaginário da população acostumada a lidar com a fome e a morte sempre presentes. Chamam este conhecimento de “experiências” e são apelidados de acordo com o método de observação. “Há o profeta dos bichos, que observa o comportamento dos animais, o profeta dos ventos, dos corpos celestes, das águas e outros”. Além disso, as experiências são apresentadas de uma forma que dê esperança para o povo sofrido. Ou, como diz o profeta Chico Mariano: “Já viu médico dizer para o paciente que ele vai morrer? É a mesma coisa comigo, se for ruim demais, não digo tudo.” 

A IMPORTÂNCIA DAS PREVISÕES POPULARES 

A importância das previsões é apoiada por uma anedota local. Há muitos anos, perguntado por um jornalista se considerava sua terra amaldiçoada depois de ter perdido tudo na seca, um sábio morador respondeu: “Não senhor, a terra daqui é muito boa, ruim é o pedaço de céu em cima dela”. O morador tinha motivos para fazer esse comentário. Os agricultores do semi-árido dependem das chuvas para dar suporte ao cultivo de subsistência e às pastagens. Não falta água na região, falta gestão dos recursos hídricos. Enquanto não muda, todo mundo olha para o céu e ouve com atenção os profetas. 

Existem métodos usados pelos profetas do Nordeste que já eram conhecidos no Oriente Médio há milênios, que provavelmente chegaram à Península Ibérica com os árabes e os judeus, e de lá vieram para as Américas. No México e na Espanha, por exemplo, é comum o método das cabañuelas, usado pelo profeta Chico Mariano em Quixadá: Onde, alguns dias de estação seca são indicadores para a estação chuvosa. No caso de Chico Mariano, o 1º de julho representa janeiro do ano seguinte. 

DEPOIMENTOS DE DOIS PROFETAS DA CHUVA 

Jacaré (José Felipe dos Santos) e os animais “Eu acompanhava os ensinamentos dos meus pais. Aí, ele dizia: “Lua cheia, dia tal, isso.” Aí, eu fui observando, fui conhecendo as experiências. Eu ouvia meu pai dizer: “O inverno é tal tempo porque a carnaúba tá florada. O inverno vai terminar porque a rolinha tá pondo no chão. A rolinha sempre faz o ninho no alto, mas como ela sabe que não vai ter mais chuva, ela faz no chão. 

O inverno é fraco – Quando o João-de-barro fez a casa com a boca virada pro nascente (leste).

Chico Mariano e as crenças 

“Dizia pro pessoal a previsão, mas sem dá notícia à imprensa nem coisa nem nada. Dava notícia para um vizinho: ‘Fulano, vai chover assim, assim, assim’... às pessoas amigas aí eu dizia. Mas quando se surgiu, uma vez o cientista botou no jornal, parece que foi 97, que era seco, aí descobriram por aí que eu sabia. Aí o jornalista me chamou: ‘Rapaz, ouvi dizer por aí que você sabe até o dia que chove. Você pode me dizer?’ ‘Rapaz, eu não gosto de dizer não, mas pra você é a primeira vez eu vou dizer.’ ‘Tem inverno?’ ‘Tem. Dia 20 de janeiro começa a chover.’ O cientista tava no jornal, ele lançou o jornal comigo disputando com ele e a Funceme, que diziam que foi seca, e teve um inverno mesmo, e teve uma chuva de 276 mm lá em Fortaleza naquele ano. Aí eles perderam. Eles acreditam muito no que digo.

Eu me dirijo pelos planetas, o planeta Vênus, a estrela-dalva, que chamam. Eu tenho por obrigação saber onde ela tá todo tempo, saber toda mudança dela. Se tá pra nascente ou para poente. Saber a época que ela se muda, que ela é quem tem uma grande força prá inverno. Então, eu confio nas luas, me preparo para observar a lua, a estrela, os reis, as três-marias, os três-reis, saber onde ele estão, a posição”. 

Antônio Anastácio da Silva (Paroara) 

“Saio, vou pro meio do mato saber. Eu saio, olho as formigas lá no beiço do açude, em cima do morro, eu faço isso. Eu faço de espontânea vontade. Quando está findando o inverno e quando está para começar outra. São duas fases.Quando nós vamos ter um inverno bom, favorável, de cheia, as formigas estão lá nos troncos das árvores, com medo da cheia que carrega. Quando é pra ser um ano seco, vá na beira do açude que elas estão embaixo daquelas pedras, morrendo de sede, com isso conclui-se que vai ter seca.
Já falei do serrador (uma espécie de besouro cortador de galhos), que vai ser um grande inverno, em período de chuvas maiores, sujeito a tempestades, mas diferente o espaço de tempo do inverno. Só que, nesse percurso aí, ainda falta o serrador serrar mais dois galhos de árvore, ou seja, o pé de árvore, que até o momento só serrou um”.


APRENDENDO COM A NATUREZA 

Pássaros, como o João de Barro, estão construindo suas casinhas no lado contrário do nascer do sol. Isto significa que vai chover na certa. 

Outra dica é o pé do mandacaru, planta típica da região nordeste que quando fica repleto de flores anuncia a aproximação do aguaceiro em período breve. 


Círculo na lua – Indica mudança no tempo. Se for grande, é virada para chuva. Se pequeno, é sol. 


Sol vermelho – indício de frio próximo. 
Redemoinhos – fortes e levantando folhas secas, trovoada esta próxima. 

Névoa – Névoa baixa é sol forte. Névoa no alto é chuva no terreiro. 


Arribação - Quando faz revoada é sinal de seca. 




Formiga assanhada – agitação e mudança repentina de formigueiro, sinal de chuva forte. 


Ninhos de rolinha – Segundo uma crença popular dos sertanejos, a rolinha quando faz seu ninho no chão significa que não chove enquanto seus filhotes não empenar e voar. 



DITOS POPULARES METEOROLÓGICOS 


· Agosto seco, inverno nervoso. 
· Outubro quente, Fevereiro frio. 
· Tal Outubro, tal Março. 
· Novembro quente, Abril e Maio frios. 
· Dezembro quente, Fevereiro frio. 
· Inverno seco, Verão seco. 
· Inverno rigoroso, Primavera úmida. 
· Inverno áspero, Verão quente. 
· Inverno com grande degelo no meio, Verão frio. 
· Inverno que começa cedo, acaba tarde. 
· Inverno que começa tarde, acaba cedo. 
· Verão chuvoso, Inverno rigoroso. 
· Verão chuvoso, Outono bom. 
· Outono bom, Primavera chuvosa. 
· Boa colheita de feno, Inverno áspero. 
· Quando o Fevereiro for muito frio, é preciso capote em Agosto. 
· Janeiro seco, boa colheita de cereais. 
· Janeiro muito frio é sinal de muito trigo. 
· Dezembro frio e de neve, ano de abundância. 

OS SANTOS LIGADOS A CHUVA 

São José – Chuva no dia de São José é sinal de fartura, acreditam a maioria dos agricultores do nordeste do Brasil. Para os agricultores, a tradição para uma colheita farta é levada a sério: os pedidos e cantorias e promessas para o santo começam logo cedo. 



Meu Divino São José, 
Aqui estou a vossos pés. 
Dá-nos chuva com abundância, 
Meu Divino São José. 
“O sertão é uma espera enorme”, 
Dá-nos chuva com abundância, 
Meu Divino São José. 


O dia 13 de dezembro não se passa sem se fazer a experiência de Santa Luzia. Sobre uma superfície lisa qualquer, exposta ao sereno da noite, depõe-se seis pequenas pedras de sal que representam, designadamente, os seis primeiros meses do ano. Na manhã seguinte o maior ou menor grau de umidade de cada pedra responde à maior ou menor intensidade de chuva no mês que ela representa. 

Na letra da música a Triste Partida de Patativa do Assaré cantada por Luiz Gonzaga, lembra dos métodos, ao contar a história de um personagem que se aflige com a seca do sertão: A treze do mês ele fez experiença / Perdeu sua crença / Nas pedras de sal / Mas nota esperança / Com gosto se agarra / Pensando na barra / Do alegre Natal. 


Diz-se que se no dia 23 ou 24 de junho, véspera ou dia de São João, cair um serenozinho ou pintar chuva durante o dia, o inverno do ano seguinte será bom. 

Afirma-se, igualmente, que se, à noite, cair chuva que apague a fogueira de São João, não faltará inverno, igualmente, no próximo ano. 


Colocar Santo Antônio de cabeça para baixo, no sol quente, é um procedimento muito utilizado pelos agricultores nordestinos na tentativa de fazer chover. 


A mistura entre os conhecimentos deve ser a base da busca do querer conhecer observando todos os âmbitos, lados e direções desse saber. 

· CONHECIMENTO DO SENSO COMUM – Conhecimento produzido sem regras, espontâneo e quase sempre baseado na percepção sensorial, na busca da solução para problemas imediatos. Tem um caráter utilitário e é repassado de um individuo a outro e de geração a geração. Incapaz de se submeter a uma crítica sistemática e isenta de interpretações baseadas apenas nas crenças pessoais. 

· CONHECIMENTO FILOSÓFICO - Está sempre à procura do mais geral, das leis mais universais, se interessando pela formulação de uma concepção unificada e unificante do universo. Utiliza o método racional onde prevalece à experiência, e se centra na coerência lógica. 

· CONHECIMENTO RELIGIOSO – Utiliza como principio operativo a fé religiosa, que é uma ordem místico-intuitiva e não de ordem racional-análitica. Supõe e exige a autonomia divina, nela se fundamentando e só a ela atendendo. 

· CONHECIMENTO CIENTÍFICO – Certo, pela condição de explicar os motivos da certeza. Metódico, sistemático, objetivo e crítico, resultante da demonstração e de muita experimentação para a comprovação. 
A busca de evidências para a garantia do conhecimento para uma divulgação deve fazer parte de todo processo, mesmo sabendo-se que nem sempre vamos ter respostas e certezas para todas as indagações. No dia a dia utilizamos todos os tipos de conhecimentos anteriormente apresentados, cabe a nós não só vê e ouvir a natureza, precisamos também interrogar, querer mais explicações. 

Todos os conhecimento devem ser encarados como ponto de partida para o conhecer mais. A própria ciência não deve ter verdades únicas e absolutas, nunca aceite em termos de ciência, uma resposta única, uma tecnologia como definitiva, pois ela é sempre provisória. Ninguém deve está autorizado a classificar este ou aquele conhecimento como superior ou inferior. Trata-se apenas de tipos diferentes de conhecimento. 

Este texto não pretende esgotar as formas naturais de ler a natureza para fazer as previsões necessárias e coordenar as tomadas de decisões. Os exemplos trazidos neste texto ainda é muito tímido em relação a infinidade de formas de previsões naturais que existem. Cada região tem uma e sua maneira própria de ler e entender a natureza. 

05 de abril de 2012

3 comentários:

  1. Gostei muito de seu site e artigos!!! Aguardo os outros !! Parabens ! Cynthia

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  2. Muito legal gostaria colocar uma de esas estacoes meteorologicas no meu campo para observer as mudancas climaticas locais.

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