Antônio Roberto Mendes Pereira
A necessidade de conhecer e entender a natureza se confunde com a trajetória da história do homem. Conhecer os fenômenos para diminuir os riscos, as perdas, prever o que pode acontecer, sempre fez parte da história antiga e a de hoje. A modernidade por mais que se atualize e se modernize sempre vai estar à mercê da probabilidade.
A incerteza é um dos princípios que rege a natureza, logo, ter certeza absoluta, e afirmar as verdades é um risco que se corre, quanto mais conheço de perto o objeto do conhecimento mais perco a visão do distante e do todo.
A Natureza é uma arte desconhecida. É acaso cuja direção ninguém conhece. É concordância e discordância cuja harmonia foge à compreensão dos indivíduos. O mal da parte é o bem do todo. A Natureza é um ambiente que o Homem tenta conhecer e dominar desde o início dos tempos. E não consegue. Pela simples razão de que ele é e faz parte da Natureza.
Este texto não quer ir de encontro aos conhecimentos científicos da meteorologia que através de muitos dados, e o uso de muitos equipamentos tentam anunciar com antecedência as previsões climáticas. Mas, também quer mostrar que a experiência prática a partir de observações cotidianas popular também produziu uma série de informações que preanunciam muitos fenômenos naturais, como seca, chuvas, ventos, escassez entre outros, e que precisam ser conhecidas e consideradas.
O primeiro tem como base a observação permanente da natureza através de equipamentos, e o segundo utiliza como base a prática observativa da natureza, através da experiência acumulada e que foi passando de pai para filho através das gerações e da prática cotidiana, de erros e acertos.
A agroecologia como ciência, tenta conectar todos estes conhecimentos, tentando facilitar o entendimento da natureza e a partir deste, facilitar a tomada de decisões nas propriedades em relação às previsões.
Durante centenas de anos a orientação climatológica era norteada pelos astros e pelo comportamento dos animais e vegetais. Todas estas observações eram feitas pelos seres humanos a partir da observação destes fenômenos e comportamentos. Mas, o homem como um ser biológico ainda não demonstra através dos seus hábitos naturais e intuitivos experiências da climatologia na suas atitudes, necessitando observar outros seres biológicos e o comportamento dos astros.
A ciência moderna para ler a climatologia monta estações meteorológicas onde são coletados dados para análise do tempo. Encontram-se equipadas com aparelhos de medição das variáveis climáticas. Os seus dados são utilizados ainda para a previsão do tempo. Atualmente, por meio de programas de computador, integram-se os dados coletados, permitindo a sua apresentação através de TV, rádio e jornais. Não podemos esquecer que a afinal de contas, a meteorologia evoluiu de observações da natureza, como as que são feitas pelos agricultores.
Uma estação típica apresenta os seguintes instrumentos de medição:
§ Termômetro para medir as variáveis da temperatura;
§ Barômetro para medir as variáveis da pressão atmosférica;
§ Higrômetro para medir as variáveis da umidade relativa do ar;
§ Anemômetro para medir as variáveis da velocidade do vento;
§ Biruta ou manga de vento para indicar a orientação do vento;
§ Piranômetro para medir as variáveis de insolação;
§ Heliógrafo para medir a duração da ação do Sol;
§ Pluviômetro para medir a quantidade de precipitação pluviométrica.
Outros dados passíveis de obtenção são o alcance visual de pista (visibilidade), altura de nuvens até aos 1500 metros, cobertura de céu nublado, nomeadamente para fins de navegação aérea.
Todos estes instrumentos é a base do homem para poder fazer as previsões do tempo, sem estes instrumentais o homem moderno não teria como fazer estas previsões a não ser que utilize o conhecimento ancestral através da observação empírica da natureza.
OS PROFETAS DA CHUVA
É assim que são conhecidos os sertanejos especializados em prever a chegada da estação chuvosa através dos sinais da natureza. Estes são grandes observadores da natureza, buscam o detalhe, são grandes olheiros, atentos aos comportamentos dos animais, dos insetos, da posição dos corpos celestes como a lua e de muitos outros. Estes fazem suas previsões a partir de toda esta gama de observações.
Mas, não dá para dizer se “esse conhecimento empírico” tem potencial porque não há um conhecimento único. Existem diversos métodos populares de prever o clima. Enquanto alguns profetas fazem prognósticos baseado na interpretação de sonhos, outros observam o comportamento dos insetos e animais, e tem até quem observa estrelas e a posição da sombra do sol durante a estação seca. Alguns desses métodos têm valor de fato, e deveriam ser mais bem estudados no mundo inteiro.
PROFETAS DA CHUVA “Quando o juazeiro flora, em novembro, é sinal de inverno tardio.”
“Em comunidades que sofrem com a seca, o papel desses personagens adquire um caráter político, de organização da população para a produção em torno de suas previsões”
Esta é uma das mais antigas tradições agrárias da civilização humana. Guardam-se na memória muitas práticas e experiências, guiando a vida de muitas pequenas comunidades. Elas ainda garantem uma observação permanente, tenho receio que estas possam ser esquecidas e totalmente substituídas pelas previsões meteorológicas cientificas, perdendo todo este poder observativo empírico, deixando para que os outros observem, e se perda todas estas práticas naturais e intuitivas. Precisamos sim aumentar este poder observativo da natureza que nos cerca e que guia os fenômenos naturais.
Ultimamente, os profetas estão desaparecendo, uma vez que seus filhos não se interessam em levar adiante esse conhecimento adquirido dos seus avôs. E como diz um desses: “Eu nasci e sempre morei no sertão, daí a gente reúne a experiência”, conta Erasmo, um dos Profetas da chuva do sertão Cearense. “É uma coisa que a minha avó sabia e ensinou prá minha mãe que ensinou prá mim e assim vai.”
Quando esses profetas vão falar, não o fazem de forma direta, mas utilizam expressões que estão presentes no imaginário da população acostumada a lidar com a fome e a morte sempre presentes. Chamam este conhecimento de “experiências” e são apelidados de acordo com o método de observação. “Há o profeta dos bichos, que observa o comportamento dos animais, o profeta dos ventos, dos corpos celestes, das águas e outros”. Além disso, as experiências são apresentadas de uma forma que dê esperança para o povo sofrido. Ou, como diz o profeta Chico Mariano: “Já viu médico dizer para o paciente que ele vai morrer? É a mesma coisa comigo, se for ruim demais, não digo tudo.”
A IMPORTÂNCIA DAS PREVISÕES POPULARES
A importância das previsões é apoiada por uma anedota local. Há muitos anos, perguntado por um jornalista se considerava sua terra amaldiçoada depois de ter perdido tudo na seca, um sábio morador respondeu: “Não senhor, a terra daqui é muito boa, ruim é o pedaço de céu em cima dela”. O morador tinha motivos para fazer esse comentário. Os agricultores do semi-árido dependem das chuvas para dar suporte ao cultivo de subsistência e às pastagens. Não falta água na região, falta gestão dos recursos hídricos. Enquanto não muda, todo mundo olha para o céu e ouve com atenção os profetas.
Existem métodos usados pelos profetas do Nordeste que já eram conhecidos no Oriente Médio há milênios, que provavelmente chegaram à Península Ibérica com os árabes e os judeus, e de lá vieram para as Américas. No México e na Espanha, por exemplo, é comum o método das cabañuelas, usado pelo profeta Chico Mariano em Quixadá: Onde, alguns dias de estação seca são indicadores para a estação chuvosa. No caso de Chico Mariano, o 1º de julho representa janeiro do ano seguinte.
DEPOIMENTOS DE DOIS PROFETAS DA CHUVA
Jacaré (José Felipe dos Santos) e os animais “Eu acompanhava os ensinamentos dos meus pais. Aí, ele dizia: “Lua cheia, dia tal, isso.” Aí, eu fui observando, fui conhecendo as experiências. Eu ouvia meu pai dizer: “O inverno é tal tempo porque a carnaúba tá florada. O inverno vai terminar porque a rolinha tá pondo no chão. A rolinha sempre faz o ninho no alto, mas como ela sabe que não vai ter mais chuva, ela faz no chão.
O inverno é fraco – Quando o João-de-barro fez a casa com a boca virada pro nascente (leste).
Chico Mariano e as crenças
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Eu me dirijo pelos planetas, o planeta Vênus, a estrela-dalva, que chamam. Eu tenho por obrigação saber onde ela tá todo tempo, saber toda mudança dela. Se tá pra nascente ou para poente. Saber a época que ela se muda, que ela é quem tem uma grande força prá inverno. Então, eu confio nas luas, me preparo para observar a lua, a estrela, os reis, as três-marias, os três-reis, saber onde ele estão, a posição”.
Antônio Anastácio da Silva (Paroara)
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Já falei do serrador (uma espécie de besouro cortador de galhos), que vai ser um grande inverno, em período de chuvas maiores, sujeito a tempestades, mas diferente o espaço de tempo do inverno. Só que, nesse percurso aí, ainda falta o serrador serrar mais dois galhos de árvore, ou seja, o pé de árvore, que até o momento só serrou um”.
APRENDENDO COM A NATUREZA
Pássaros, como o João de Barro, estão construindo suas casinhas no lado contrário do nascer do sol. Isto significa que vai chover na certa.
Outra dica é o pé do mandacaru, planta típica da região nordeste que quando fica repleto de flores anuncia a aproximação do aguaceiro em período breve.
Círculo na lua – Indica mudança no tempo. Se for grande, é virada para chuva. Se pequeno, é sol.
Sol vermelho – indício de frio próximo.
Redemoinhos – fortes e levantando folhas secas, trovoada esta próxima.
Névoa – Névoa baixa é sol forte. Névoa no alto é chuva no terreiro.
Arribação - Quando faz revoada é sinal de seca.
Formiga assanhada – agitação e mudança repentina de formigueiro, sinal de chuva forte.
Ninhos de rolinha – Segundo uma crença popular dos sertanejos, a rolinha quando faz seu ninho no chão significa que não chove enquanto seus filhotes não empenar e voar.
DITOS POPULARES METEOROLÓGICOS
· Agosto seco, inverno nervoso.
· Outubro quente, Fevereiro frio.
· Tal Outubro, tal Março.
· Novembro quente, Abril e Maio frios.
· Dezembro quente, Fevereiro frio.
· Inverno seco, Verão seco.
· Inverno rigoroso, Primavera úmida.
· Inverno áspero, Verão quente.
· Inverno com grande degelo no meio, Verão frio.
· Inverno que começa cedo, acaba tarde.
· Inverno que começa tarde, acaba cedo.
· Verão chuvoso, Inverno rigoroso.
· Verão chuvoso, Outono bom.
· Outono bom, Primavera chuvosa.
· Boa colheita de feno, Inverno áspero.
· Quando o Fevereiro for muito frio, é preciso capote em Agosto.
· Janeiro seco, boa colheita de cereais.
· Janeiro muito frio é sinal de muito trigo.
· Dezembro frio e de neve, ano de abundância.
OS SANTOS LIGADOS A CHUVA
São José – Chuva no dia de São José é sinal de fartura, acreditam a maioria dos agricultores do nordeste do Brasil. Para os agricultores, a tradição para uma colheita farta é levada a sério: os pedidos e cantorias e promessas para o santo começam logo cedo.
Meu Divino São José,
Aqui estou a vossos pés.
Dá-nos chuva com abundância,
Meu Divino São José.
“O sertão é uma espera enorme”,
Dá-nos chuva com abundância,
Meu Divino São José.
O dia 13 de dezembro não se passa sem se fazer a experiência de Santa Luzia. Sobre uma superfície lisa qualquer, exposta ao sereno da noite, depõe-se seis pequenas pedras de sal que representam, designadamente, os seis primeiros meses do ano. Na manhã seguinte o maior ou menor grau de umidade de cada pedra responde à maior ou menor intensidade de chuva no mês que ela representa.
Na letra da música a Triste Partida de Patativa do Assaré cantada por Luiz Gonzaga, lembra dos métodos, ao contar a história de um personagem que se aflige com a seca do sertão: A treze do mês ele fez experiença / Perdeu sua crença / Nas pedras de sal / Mas nota esperança / Com gosto se agarra / Pensando na barra / Do alegre Natal.
Diz-se que se no dia 23 ou 24 de junho, véspera ou dia de São João, cair um serenozinho ou pintar chuva durante o dia, o inverno do ano seguinte será bom.
Afirma-se, igualmente, que se, à noite, cair chuva que apague a fogueira de São João, não faltará inverno, igualmente, no próximo ano.
Colocar Santo Antônio de cabeça para baixo, no sol quente, é um procedimento muito utilizado pelos agricultores nordestinos na tentativa de fazer chover.
A mistura entre os conhecimentos deve ser a base da busca do querer conhecer observando todos os âmbitos, lados e direções desse saber.
· CONHECIMENTO DO SENSO COMUM – Conhecimento produzido sem regras, espontâneo e quase sempre baseado na percepção sensorial, na busca da solução para problemas imediatos. Tem um caráter utilitário e é repassado de um individuo a outro e de geração a geração. Incapaz de se submeter a uma crítica sistemática e isenta de interpretações baseadas apenas nas crenças pessoais.
· CONHECIMENTO FILOSÓFICO - Está sempre à procura do mais geral, das leis mais universais, se interessando pela formulação de uma concepção unificada e unificante do universo. Utiliza o método racional onde prevalece à experiência, e se centra na coerência lógica.
· CONHECIMENTO RELIGIOSO – Utiliza como principio operativo a fé religiosa, que é uma ordem místico-intuitiva e não de ordem racional-análitica. Supõe e exige a autonomia divina, nela se fundamentando e só a ela atendendo.
· CONHECIMENTO CIENTÍFICO – Certo, pela condição de explicar os motivos da certeza. Metódico, sistemático, objetivo e crítico, resultante da demonstração e de muita experimentação para a comprovação.
A busca de evidências para a garantia do conhecimento para uma divulgação deve fazer parte de todo processo, mesmo sabendo-se que nem sempre vamos ter respostas e certezas para todas as indagações. No dia a dia utilizamos todos os tipos de conhecimentos anteriormente apresentados, cabe a nós não só vê e ouvir a natureza, precisamos também interrogar, querer mais explicações.
Todos os conhecimento devem ser encarados como ponto de partida para o conhecer mais. A própria ciência não deve ter verdades únicas e absolutas, nunca aceite em termos de ciência, uma resposta única, uma tecnologia como definitiva, pois ela é sempre provisória. Ninguém deve está autorizado a classificar este ou aquele conhecimento como superior ou inferior. Trata-se apenas de tipos diferentes de conhecimento.
Este texto não pretende esgotar as formas naturais de ler a natureza para fazer as previsões necessárias e coordenar as tomadas de decisões. Os exemplos trazidos neste texto ainda é muito tímido em relação a infinidade de formas de previsões naturais que existem. Cada região tem uma e sua maneira própria de ler e entender a natureza.
05 de abril de 2012
Gostei muito de seu site e artigos!!! Aguardo os outros !! Parabens ! Cynthia
ResponderExcluirMuito legal gostaria colocar uma de esas estacoes meteorologicas no meu campo para observer as mudancas climaticas locais.
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