domingo, julho 1

Aquicultura na pequena propriedade rural - A água e seu intenso potencial natural produtivo

Antônio Roberto Mendes Pereira



Em uma propriedade rural não basta simplesmente ter água é preciso saber usufruir de todo seu potencial produtivo. A água é um ecossistema complexo, que deve ser, diversificado, integrado e produtivo, conseguindo sustentar uma infinidade de vida de forma sustentável, desde que se deixe que a natureza possa construir este sistema. Da mesma forma que o solo é um ecossistema bastante produtivo a água tem também esta capacidade com características muito particulares. 




Em muitas propriedades providas com fartura deste maior bem da humanidade, percebe-se que estes espaços na sua maioria são subaproveitados e transformados em áreas aquáticas de monocultivos, da mesma forma que se faz com o solo em muitas propriedades rurais. Em outras propriedades estes espaços são meramente locais de acúmulo de água, para outros fins como irrigação, ou simplesmente embelezamento, ou reserva de água para o consumo ou até lazer. A quantidade de vida é pobre, pequena, tornando-se até uma água morta (sem vida), pois a preocupação é não ter nada dentro dela. É como se a presença de vida fosse motivo para ela ser considerada água suja, imprópria para muitas atividades. Não se pode esquecer que onde a vida está em equilíbrio não tem poluição, sujeira, a própria natureza equilibra todo este espaço colocando mais vida. Não há desenvolvimento nem das pessoas e nem dos espaços sem um meio ambiente equilibrado. 

E deixa-se de poder desfrutar da capacidade de sustentação deste líquido chamado ÁGUA. 

Na maioria das propriedades que tem a presença de água em açudes, barreiros, barragens o sistema aquático é pobre, desprovido de uma integração maior entre espécies de animais e planta aquáticas. A diversidade é baixa e quase que não tem conexões entre as poucas espécies presentes. 


Na Permacultura, os sistemas aquáticos são considerados espaços de policultivos, ou seja, ecossistemas aquáticos que podem ser cultivados com grande diversidade. Em alguns continentes como exemplo o Asiático estes sistemas são mais desenvolvidos, tendo uma história de vida criando e montando sistemas aquáticos altamente complexos e produtivos. Estes espaços podem servir de modelo e de inspiração para a criação de outros espaços. 


Este texto tem a intenção de aumentar o conhecimento sobre esta temática, mostrando de forma simples, quais os princípios que deve nortear este processo de cultivar, de forma diversificada estes espaços de mero acúmulo de água em sistemas aquáticos diversificados. 

O consumo de peixe vem sendo estimulados aqui no nordeste do Brasil até na merenda escolar. O estímulo a criação de peixes em tanques escavados é uma ação atual do governo de Pernambuco (Eduardo Campos). Este estímulo caminha na direção de melhorar as estruturas já montadas e na montagem de outros, ajudando na organização dos pescadores(as) como também aumentando os conhecimentos sobre esta atividade. Como fazer que com estes espaços existentes tornem-se cultivos de policulturas aquáticas e terrestres? Como quebrar a idéia de monocultivo também na água? Como melhor tirar proveito de forma sustentável destes espaços? Como fugir do dito popular “não dê o peixe, ensine ele a pescar”, e trazer outro pensamento “Como ensinar ele a criar este peixe de forma mais sustentável e natural e diversificada?” 

Nos sistemas aquáticos podem ser criados peixes, crustáceos, moluscos, anfíbios, plantas aquáticas comestíveis como taioba, arroz, agrião de água, além de outras plantas para o consumo da fauna aquática, enriquecendo com vida o sistema. Diferente das criações comerciais onde uma ou outra espécie de animal aquático é produzida tornando espaços monoculturais indesejáveis e não satisfatória como alternativa para a pesca nos sistemas naturais. A maioria das pisciculturas tem os mesmos problemas que os demais sistemas monoculturais, requerem altas injeções de recursos financeiros para a manutenção de uma produção que lhes traga lucros. E muitos destes insumos são produtos químicos artificiais. Precisamos saber que a aquicultura é potencialmente menos danosa ao ambiente, além de poder se produzir proteína animal com baixo custo ambiental. 

Precisamos montar nas propriedades sistemas aquáticos para aumentar a segurança alimentar da família, transcendendo a idéia de criar apenas peixe na intenção do mercado, da comercialização do vender. Poder alimentar a família com alimentos sadios oriundos de uma criação doméstica bastante diversificada, produzindo proteína animal com baixo custo e de alta qualidade devido as funções e características de qualidades especiais que os peixes possuem é a idéia ideal. 

Os peixes por serem animais de sangue frio e por não utilizar energia para aquecer o seu corpo, necessitam de menos alimento para aumentar seu peso corporal, tornando a produção de proteína animal muito mais rápida e eficiente. Outra grande vantagem da criação de peixes nestes sistemas é que muitas espécies podem ser alimentadas por detritos orgânicos, tais como restos de animais e plantas, dispensando o uso de rações balanceadas e caras, diminuindo os custos de produção. Toda a alimentação necessária pode ser produzida na propriedade a partir dos recursos locais, dispensando grandes gastos e investimentos financeiros na formação destes alimentos. 

Nos sistemas aquáticos os peixes estão mais próximos do inicio da cadeia alimentar, facilitando sua alimentação e manutenção com outros seres que estão em outro nível trófico da teia alimentar. Quanto mais próximo da base menos gasto de energia. Aumenta-se a produção com pouco uso de energia. 

A água do sistema vai ficar enriquecida e não poluída devido a presença destes animais aquáticos, tornando esta água em um ótimo biofertilizante rico em nutrientes, servindo também para aumentar a produção de outros alimentos, aumentando a capacidade produtiva da propriedade. 


A ÁGUA NO LAGO E AS POSSÍVEIS FUNÇÕES PARA O SISTEMA 

· Produção de alimento de origem animal e vegetal os mais variados; 
· Controle de possíveis desastres e catástrofes; 
· Irradiação solar para a casa ou outros ambientes; 
· Embelezamento estético do ambiente; 
· Uso no atendimento de saciar a sede das plantas e animais; 
· Baixar a temperatura do ambiente onde ele esta localizado; 
· Fertilização de plantas; 
· Contribuição no sequestro de carbono; 
· Resfriamento do ambiente, contribuindo no controle do aquecimento global; 
· Servir para atender a várias necessidades interna da casa; 
· Saciar a sede dos animais; 
· Irrigação das plantas; 
· Em alguns casos pode contribuir na geração de energia; 
· Área de lazer com a criação de piscinas naturais e pesque e pague; 
· Área de incentivo de procriação de controladores biológicos como sapos, pererecas entre outros; 
· Contribui para o aumento das conexões entre os mais variados elementos; 
· Refrescamento de brisa e de ventos que passam por ele; 
· Aumenta a capacidade de se ter mais bordas; 

Porém quando não bem manejados e controlados pode vir a se tornar uma grande problema. Vejamos algumas bases negativas: 

· Área de poluição; 
· Área de disseminação de doenças e pragas; 
· Seremos mais vulneráveis a desastres e mudanças climáticas; 
· Perdemos os valores e deveres e funções da água; 

PROJEÇÃO DE UM LAGO ARTIFICIAL 

Estes espaços precisam projetar e imitar ao máximo os lagos naturais, logo a infra-estrutura deles precisam ter várias profundidades, para aumentar a diversidade. Com profundidades diferentes podem-se ter peixes e outros animais aquáticos tendo sendo atendidas suas necessidades de temperatura da água e alimentação e quantidade de oxigênio. As espécies têm necessidades diferentes, e estes espaços precisam responder a estas necessidades para tornar-se biodiversos. Da mesma forma que os animais têm exigências diferenciadas as plantas que vão compor este sistema também precisam ter suas necessidades atendidas. Provocar a criação de cultivos de bordas também deve fazer parte desta projeção. 



A imagem acima mostra a projeção de uma piscina natural onde a mesma lógica pode ser utilizada na criação de peixes, crustáceos, moluscos entre outros. A presença de vegetação de borda pode ser um dos grandes atributos deste tipo de criação. Estas plantas de bordas podem também ser plantas cultivadas para o consumo humano. A presença de hortaliças nestas bordas facilita a irrigação e o desenvolvimento, pois nesta água vai se encontrar vários nutrientes que vão servir de fertilização para as mesmas. 

Na projeção de ambientes aquáticos diversificados precisamos levar em consideração alguns pré requisitos que podem fazer a diferença: 

· Prefira sempre espécies nativas da região, assim a adaptação dos peixes é mais fácil, eles serão mais resistentes. 

· Na construção do tanque ou lago de aquicultura considere o máximo de bordas, tanto na superfície quanto em diferentes profundidades, este simples procedimento de execução facilita enormemente na diversificação de espécies. 

· Crie esconderijos para os alevinos e filhotes de outras espécies para que elas possam se esconder dos predadores. 

· A escolha dos peixes e demais animais e plantas que irão compor o sistema deve ser determinada pelas condições do tanque ou lago, pelo clima e pelas espécies encontradas na região, respeite estes limites. 

· É importante também levar em consideração fatores como vento e sombreamento no tanque ou lago. O vento pode contribuir na aeração, mas é bom lembrar que em excesso pode aumentar a evaporação. O sombreamento evita o aquecimento em demasia da água. 

· Tente ao máximo aumentar neste consorcio criando uma rede complexa de interações e associações. 

· Os patos podem ajudar muito na aeração do lago, além de fertilizar a água. 

· Aumente também a presença de plantas aquáticas, pois elas podem suprir a vida silvestre com alimentos, além de embelezar o habitat. 

· Crie área de refúgio para os pássaros aquáticos. 

ESTA É A IDEIA PRINCIPAL 

Como criar um lago ou outros espaços aquáticos com toda esta diversidade de plantas, peixes, aves, porém sendo a maioria de consumo humano? Imitando ao máximo os ecossistemas aquáticos. 




Com bastante atenção e dedicação e sem a pressa humana, pode-se montar espaços artificiais que tem uma grande capacidade produtiva além da beleza estética e paisagística. Estes espaços podem agir como um espelho, uma armazenagem de calor, um limpador de poluentes, um sistema de transporte, uma barreira contra o fogo, um recurso de lazer, um banco de energia, parte de um sistema de irrigação ou simplesmente um criatório de peixes, crustáceos e plantas aquáticas e acima de tudo produtivo. 


Para aprender montar estes espaços com toda esta diversidade, comece montando um pequeno lago artificial no jardim da casa. Aprenda com a natureza, vá aumentando lentamente a diversidade, encontre os consórcios adequados ao ambiente. 

A possibilidade, hoje em dia, de se ter um lago no jardim da casa pode ser vista como um privilégio de poucos. Numa época de escassez de espaço, ao mesmo tempo em que cresce a importância da ecologia, as pessoas buscam cada vez mais proximidade com a natureza. Para muitos, a água, as plantas e peixes e demais seres aquáticos, se houver, fornecem momentos de lazer, descontração e paz em dias agitados. Assim, um simples lago no quintal pode ser um fator essencial de melhor qualidade de vida. 



Dividir água com outras espécies é importante para a nossa existência. Animais e plantas interagem de uma forma totalmente diferente da nossa com a água. Logo precisamos estimular esta existência de uma forma que todos que vão compor este sistema possam ser beneficiados. Este é o desafio lançado, aumentar a interação sem perder a produção. 

01 de julho de 2012

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Morrow, Rosemary – Permacultura Passo a Passo – Pirenópolis, GO : Mais Calango Editora, 2010

Legan, Lucia- Soluções Sustentáveis – Permacultura na Agricultura Familiar/ Pirenópolis, GO: Mais Calango Editora, Ecocentro IPEC, 2007

Introdução à Permacultura – Bill Molisson e Reny Mia Slay

Permacultura UM – Bill Mollison e David Holmgrem

http://sitiocurupira.wordpress.com/aquiculturaealagados/

4 comentários:

  1. Adorei o artigo, muito esclarecedor e objetivo.

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  2. Espetacular esse texto Antonio!
    Muito esclarecedor...

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  3. Parabéns pela sua proposta!Sou pernambucana,de Santa Cruz do Capibaribe, logo somos vizinhos kkkk... moro em João Pessoa e tenho propriedade rural no município de Pedras de Fogo... e pretendo empreender projeto de permacultura...para construção de um acesso de 200 metros de extensão, qual seria o material ideal? Agradeço sua ateção...

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