sexta-feira, agosto 3

Saúde do solo e sua relação com as doenças no campo - A nossa saúde inicia-se no solo

Antônio Roberto Mendes Pereira 

As doenças estão sendo uma constante cada vez mais percebida em muitos espaços, inclusive no meio rural. O campo que antes era visto como um espaço que levava as pessoas a ter saúde, hoje esta deixando a desejar. No campo antes do uso da parafernália de insumos químicos na agricultura, tinha-se uma alimentação das mais saudáveis, o espaço era livre de poluição, o ar puro, leite fresco ordenhado e bebido na hora, a qualidade da água nem se fala, era como aprendemos na escola, insípida e inodora, todos estes sinais eram entendidos como formas de se ter uma vida saudável. Em alguns casos até os profissionais da saúde recomendavam como prescrição médica, passar uma temporada no campo para o tratamento de vários problemas adquiridos na agitada vida urbana. 


A alimentação simples, natural e diversificada era a base da saúde das pessoas que moravam neste espaço. Comida beneficiada muito pouco, o beneficiamento acontecia simplesmente de formas naturais sem a colocação de insumos químicos artificiais, o fogão, os temperos e a forma de fazer era o segredo. 

O iogurte deste espaço era a coalhada, fermentado em panela de barro, não existia margarina, só se comia manteiga pura, nata de leite, manteiga de garrafa, queijo os mais variados, requeijão era de dar água na boca só de pensar, o doce era doce feito no fogão a lenha, suco era da fruta colhida alguns minutos antes de se beber. Carne era das criações que se tinha no terreiro do sítio. 


Mas, toda esta riqueza gastronômica tinha mais sabor não só pela forma de se preparar, mas de onde foi plantado ou criado, o tipo e a qualidade do solo era a base de toda esta fartura. A qualidade biológica, o sabor, o cheiro, a aparência, tudo isto estava ligado diretamente à qualidade do solo, onde tudo se processava. O manejo que o sistema de produção dava ao solo era o responsável por todas estas qualidades natas do produto. A preservação da fertilidade deste solo era o segredo do valor biológico e do paladar. 

Este texto tenta fazer uma comparação entre a saúde das pessoas e a preservação da qualidade do solo e principalmente da sua fertilidade. 

Muitos dos problemas de saúde estão ligados diretamente a fertilidade do solo e a presença de húmus. A decadência da bioestrutura e da fertilidade do solo com o desaparecimento ou consumo total do húmus, estão aumentando as doenças, tanto nos vegetais como nos animais inclusive nos seres humanos. 


Não só se adoece com os produtos provindos do campo pelo uso dos agrotóxicos que eles receberam, pode-se também adoecer pela infertilidade do solo, alimentando-se com os produtos por ele produzidos. Produtos de baixo valor biológico e nutricionalmente incompletos podem criar problemas carências nas pessoas pelo consumo constante. As carências nutricionais iram ocorrer proveniente da falta dos minerais e nutrientes nos alimentos. 


Muitas civilizações desapareceram pelo mau uso dos seus solos. A infertilidade destes solos levou populações inteiras ao extermínio. A dinâmica da ascensão e queda das civilizações depende, dentre outras condições, de sua capacidade de relacionar-se de forma sustentável com o meio ambiente. 

Crescimento, apogeu e declínio é parte da evolução das civilizações: a egípcia, que se iniciou há mais de 3 mil anos a.C., atingiu seu apogeu no primeiro milênio a.C. e declinou até o início de nossa era: a grega, importante matriz da civilização ocidental, teve seu apogeu no século V a.C. 

Porém algumas civilizações orientais tiveram a capacidade de perdurar desde a antiguidade mais remota, muitos milênios a.C., e de suportar sucessivas ondas de influências e de invasões externas. Nutriram-se e fortaleceram-se com energia e dinâmica. 

Os impactos ambientais causados pelo ser humano quando não avaliados antes de serem executados podem trazer consequências terríveis. Antigas tribos americanas, antes de realizarem uma ação, avaliavam seus efeitos sobre sete gerações: a atual, as de seus filhos, netos e bisnetos, e as de seus pais, avós e bisavós. Depois dessa reflexão consciente sobre suas consequências, decidiam se a ação deveria ser praticada ou não. 

DOENÇAS ASSOCIADAS ÀS CARÊNCIAS MINERAIS DO SOLO 

Os elementos químicos minerais desempenham funções de grande importância no organismo humano, sendo indispensáveis para o desenvolvimento e a saúde dos indivíduos. 

Ainda não existe uma avaliação global do estado nutricional dos indivíduos em relação a esses micronutrientes no Brasil, mas os estudos existentes apontam para a necessidade do acompanhamento das tendências alimentares que poderiam levar às suas deficiências com consequências adversas para a saúde da população e o desenvolvimento do nosso país. 

Em um trabalho cientifico realizado pela Universidade de Viçosa/MG, em conjunto com a organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO); A Organização Mundial de Saúde (OMS); a Fundação Getúlio Vargas (FGV); e dados coletados pelo IBGE, foi demonstrada a gravíssima deficiência mineral encontrada na dieta alimentar brasileira. 

Constatou-se que essa carência atinge até a parcela da população com alto poder aquisitivo, configurando, portanto, que o déficit nutricional independe da realidade sócio-ecônomica e que a dieta do povo brasileiro, como um todo, é insatisfatório, incapaz de repor os nutrientes minerais essenciais aos níveis mínimos necessários para a manutenção de uma vida saudável e produtiva. 

O SOLO BRASILEIRO É POBRE DE MINERAIS 

O prosseguimento dos estudos revelou a origem do problema: contrariando a crença popular, o solo brasileiro, assim como a totalidade dos solos tropicais é pobre de nutrientes essenciais, tais com selênio, zinco, cálcio, ferro e magnésio, indispensáveis à boa formação física e mental. 

A carência mineral do solo afeta diretamente toda a cadeia alimentar, inclusive os produtos de origem animal e seus derivados, que chegam até nós também são carentes. Mesmo quem se alimenta bem, não consegue suprir sequer 30% do mínimo necessário. 

A fragilidade do solo brasileiro afeta a nossa dieta. No caso de alguns minerais vitais, como selênio, por exemplo, quem melhor se alimenta no Brasil, consome no máximo 24,7 mcg/dia, quando o mínimo necessário é de 70mcg/dia. 

PRINCIPAIS DEFICIÊNCIAS 

Selênio – causa degeneração pancreática, mialgias, músculos flácidos, fragilidade das células vermelhas, miopatias cardíacas, inclusive fatais. 

Zinco – mal funcionamento de enzimas vitais, atrasos de crescimento, depressão da função imunológica, dermatites, alterações da capacidade reprodutiva, anomalias esqueléticas, diarreias e alopecia. 

Ferro – anemia e suas conseqüências, como diminuição da atividade intelectual, do desenvolvimento psicomotor, menor resistência a infecções. 

Magnésio – suspeita-se que a longo prazo seja fator etiológico de doenças Crônicas cardiovasculares, renais e neuromusculares. 

CAPACIDADE PRODUTIVA REDUZIDA 

Foram traçados paralelos entre a baixa mineralização das regiões brasileiras e seus índices de produtividade e, não por coincidência, os números mostraram-se totalmente consonantes. Muitas vezes atribui-se a diferença entre os níveis de produtividade das regiões Norte e Sul a questões climáticas, ou mesmo étnicas quando na realidade parte da origem deste problema está na mineralização do solo. 

A Região sul é temperada e, portanto, tem o solo mais mineralizado que o da região Norte – Tropical. Não é por menos que o Sul tem a maior expectativa de vida do Brasil. 

Para citar um único exemplo: a baixíssima quantidade de selênio no solo brasileiro causa inúmeras doenças com sintomas crônicos de fraqueza e indisposição. Portanto, não se deveria falar de um “povo apático”, mas de um povo com debilidade física e incapacidade por doenças, ainda que doenças latentes, que dia após dia afetam a vitalidade e o vigor, até se manifestarem definitivamente. 

FALTOU NA TERRA VAI FALTAR NO ALIMENTO 

Este é o principal alerta para quem tem terra e não vem dando um manejo adequado. Muitas pessoas imaginam que em só esta se alimentando com produtos naturais provindos diretamente da roça, estaria se alimentando com produtos de alta qualidade nutricional, e isto não é uma constante verdadeira, a dependência do valor nutricional esta diretamente ligada a fertilidade dos solos em que estes alimentos são produzidos. Vez por outra nos encontramos com produtos com as seguintes características: 

· Frutas belíssimas, mas sem aroma nenhum; 
· Frutas que eram para ser muito adocicadas e são azedas; 
· Hortaliças com cores apáticas, amarelas onde deveriam ter um verde intenso; 
· Galinhas que não conseguem durante a fase jovem empenar direito, levando muito tempo para completar seu empenamento total; 
· Ovos que são de pele e não de casca; 
· Carnes sem os sabores devidos para a espécie; 
· Frutas secas sem caldos; 

Todas as características podem estar ligadas diretamente as carências minerais do solo. É como se o solo produzisse estes produtos, porém de forma incompleta nutricionalmente, faltando alguma coisa, ou melhor, algum elemento. 


TRATAMENTO QUE NÃO RESOLVE 

Acontece vez por outra que pessoas recebem indicações de utilizar determinadas plantas medicinais para o tratamento ou até cura de determinados problemas de saúde, e não conseguem bons resultados. E terminam dizendo que esta planta não cura nada, pois utilizou durante várias semanas e não percebeu nenhuma melhora. Com certeza este tipo de ocorrência pode está acontecendo sendo resultado muitas vezes, não da planta, mas do solo onde esta planta se desenvolveu. Talvez todos os princípios ativos não puderam ser elaborados pela planta, porque no solo não existia ou estava em baixa quantidade determinados minerais, que quando consorciados com outras substâncias, são os responsáveis pela formação destes princípios ativos que promovem a cura. Como vemos a fertilidade do solo pode ser uma limitante para muitas coisas ligadas a alimentação e consequetemente a saúde das pessoas, das plantas e dos animais. 


INDICADORES DE SOLO SAUDÁVEL 

Existem vários indicadores que podem nos orientar sobre a fertilidade ou não do solo. Alguns destes indicadores podem ser observados sem muita necessidade de conhecimentos profundos sobre pedologia (estudo do solo). Já outros precisam ser analisados em laboratórios para a comprovação ou não da presença de determinados minerais. 


1. Diversidade de plantas e animais no local - É sinal de solo fértil e de saúde desse solo. A diversidade de minerais que promove a fertilidade do solo, é um dos facilitadores para o surgimento da biodiversidade. 

2. Presença de matéria orgânica diversificada e abundante – É um bom indicador de solo vivo, ativo e fértil. Se tivermos grande quantidade de matéria orgânica é porque temos muitas plantas e ou animais, e se esta matéria orgânica for proveniente de plantas e animais diversificados a riqueza é potencialmente rica, propiciando um alto nível de fertilidade. 

3. A cor do solo – também é um grande indicador de solo potencialmente rico, pois a cor escura normalmente é proveniente da decomposição de matéria orgânica. Embora que alguns tipos de solo podem ter também uma cor mais escura devido ao tipo da rocha de origem, mas na sua maioria é a matéria orgânica a grande base para esta cor escura dos solos férteis. 

4. O volume de biomassa por metro quadrado – Esta quantidade de vida clorofiliana é um grande indicador da riqueza e diversidade deste solo. Porém, esta quantidade de biomassa verde está também relacionada a presença do sol e da capacidade das plantas de fotossintetizar. 


5. O vigor e o crescimento dos seres vivos pertencentes a este agroecossistema, estão totalmente relacionado a riqueza e disponibilidade dos minerais e nutrientes para as plantas. É provável que possa acontecer de existir um solo fértil, porém sem ter seus minerais disponibilizados para as plantas. A carência, por exemplo, de cálcio pode ser o limitante para impedir a assimilação dos demais minerais do solo. Logo, este solo necessitará de uma calagem para suprir esta deficiência. 

6. A presença de minhocas – Em alguns países a fertilidade é medida através da presença de minhocas. Estes seres são responsáveis em grande parte pelo revolvimento e mistura dos minerais do solo. Executam um papel fundamental na manutenção desta fertilidade, pois chegam ainda a aumentar alguns níveis de alguns minerais do solo. Logo quanto mais minhocas você encontrar no seu solo, mais fertilidade este solo estará alcançando. 

AS CONEXÕES QUE LEVAM AS COMBINAÇÕES ADEQUADAS 

A BOA FERTILIDADE de um solo esta agregada, ou melhor, conectada com uma grande quantidade de variáveis que promovem a saúde e a produção de todo o sistema. Podemos tentar elencar algumas destas variáveis interligadas: 

Solo com grande quantidade de matéria orgânica ajuda para que este solo possa se tornar fofo, grumoso, esta grumosidade permite a entrada de ar e água, este ar e esta água ajuda na absorção das plantas, que por sua vez contribui de forma direta no aumento da fotossíntese, que termina por aumentar a produção de biomassa, que estimula a floração e que esta se transforma em flores que serão futuros frutos. 

A ESCOLHA A SER PENSADA 

Sempre o ser humano busca a comodidade. O tempo inteiro é a pretensão da maioria das pessoas. Já se associou o pensamento de qualidade de vida, com o não fazer nada, em ter tudo mais fácil, de forma que não dê muito trabalho. Mas, as vezes esta postura concorre para as tomadas de decisões erradas, que leva a ter mais rápido, sem lembrar do dito popular que diz “o apressado come cru”, complemento meu “e ruim”. O solo tem seu tempo para preparar e disponibilizar os minerais da melhor forma que a planta possa assimilá-lo sem problema, no tempo certo, na quantidade certa. Saiba escolher pelo sadio, pelo preparado com calma, amadurecido pelo tempo da natureza. É claro que em algumas situações necessita-se de pressa, mas se você dispõe de tempo, dê tempo ao tempo. 



Não podemos esquecer que: 

· A base de um solo fértil e de uma agricultura próspera é o húmus; 
· O retorno de resíduos deve ser equilibrado com a perda de húmus envolvido na produção; 
· É um atraso ainda hoje, se vê agricultores que para substituir as terras já degradadas pelo manejo errado, vão em busca de explorar novas áreas; 
· Evite ser tentado em transformar fertilidade em dinheiro sem controle; 

Como vemos a mãe terra quando privada de sua fertilização natural, termina por afetar diretamente de quem dessa terra se alimenta. Repense o manejo que está sendo dado ao solo. A natureza e sua saúde agradecem. 

03 de agosto de 2012

4 comentários:

  1. Amigo Roberto,
    Parabéns pela belíssima postagem...

    Realmente está cada vez mais difícil,encontrármos alimentos saudáveis,pois o uso indiscriminado dos defensivos agrícolas tem deixado muitos resíduos,que só fazem mal a nossa saúde.

    Por isso,é imprescindível manter e incentivar plantios feitos e mantidos de forma orgânica,para que possamos nos beneficiar dos nutrientes,sem ter que consumir "veneno"junto...

    Abração.
    Paulo Romero.
    Meliponário Braz.

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  2. excelente artigo...que faça a diferença, para alguém que o leia! Obrigado.

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  3. Parabens pelo artigo! grande aprendizado.

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  4. realmente, este texto mostra a realidade, propriamente dita do nosso planeta, a preocupação planetaria é grande e todos temos que nos unir para pensarmos no q vai acontecer com as gerações futuras.

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