sexta-feira, fevereiro 24

Estudo da paisagem como base para a prática da agricultura familiar - Aprendendo a ler a paisagem

Antônio Roberto Mendes Pereira 

Quem não se encanta ao olhar uma paisagem natural cheia de flores coloridas, água corrente, árvores com frutas, pássaros, borboletas e uma relva bem verdinha. Todo este cenário invariavelmente nos remete a um estado de tranquilidade, de felicidade, de paz e de êxtase para alguns. Muitas paisagens servem até de inspiração para muitos artistas nas mais variadas modalidades e áreas da expressão da arte. Para outros, é uma afirmação da existência de Deus. Enfim não tem como ver e não sentir nada. Mas, a maioria da população não imagina o nível de conexões, de relações que uma paisagem deve ter para ser tão exuberante, e esteticamente perfeita além de ser harmoniosa com todos os recursos que existe disponível no local. 


O nível de conexão existente em uma paisagem é enorme, é tão complexo que às vezes não conseguimos perceber os detalhes, os micros e as macros combinações e conexões existentes entre eles. A cada conexão que ocorre, um novo equilíbrio dinâmico se projeta. Em cada conexão gerada, menos possibilidades de insegurança. Em cada conexão que se cria mais sustentabilidade para todo aquele ecossistema. 

É notório que quanto menos elementos que compõe uma paisagem, mais frágil é o ecossistema em questão ou que está sendo observado. Todas estas observações e muitas outras podem nos ajudar a entender o que esta paisagem é capaz de nos alertar e proporcionar, para as tomadas de decisões necessárias no que se refere ao nosso mundo produtivo. Este texto tenta trazer algumas observações que precisam ser decodificadas a partir da paisagem que se observa, subsidiando com informações as intervenções no nível de produção. Ler a paisagem deveria ser uma prática disciplinar nas escolas. A geografia na minha opinião por mais que desempenhe este papel de ler e entender a paisagem, não alcança os níveis das relações que quero elucidar entre todos os componentes da paisagem observada. Este texto vai tentar mostrar detalhes a partir da leitura desta paisagem indicando o que pode e se deve fazer na prática da agricultura familiar com enfoques Permaculturais. 

O QUE PRECISA SER OBSERVÁVEL NA LEITURA DE UMA PAISAGEM? 

É comum querermos conhecer as pessoas e as coisas, a própria ciência incutiu na nossa cultura a necessidade de conhecer profundamente estes detalhes, ser curioso faz parte de nossa vida. Quando se fala em pesquisa agropecuária existe hoje um patrimônio de informação dos elementos que compõe as paisagens de forma incrível. Sabe-se muito sobre cada elemento existente, existem manuais, livros, boletins, fichas técnicas, todas preparadas para explicar o que é, como nasce, como vive, como se reproduz, o que come, mas quando se pergunta como convive, como se relaciona, com os outros elementos e com o meio, aí o “bicho pega”. Pouca informação neste nível se possui, pouca gente se aprofunda e escreve sobre estes comportamentos e relacionamentos. Saber tudo sobre determinada planta é importante, mas como acontece a relação desta com as demais com a mediação do meio, torna-se mais complicada as respostas do como acontece, porque acontece e em que circunstância pode ocorrer. 




Se olharmos uma paisagem não só com os olhos de olhar, mas com os olhos de ver, poderemos entender muitas informações que são passadas pela natureza que compõe tal espaço. Consegue-se entender parte do seu funcionamento e as conexões que acontecem criando uma teia de elementos, de relações, de combinações que dão garantia a todos que desse espaço faz parte. 

Independentemente da paisagem, ela sempre tem muitas informações que podem nos ajudar a: 

· A entender; 
· A perceber; 
· A conectar; 
· A combinar; 
· A repensar; 
· A preservar; 
· A conservar; 
· A aprender; 
· A imitar. 

· A diversidade da paisagem – O número de elementos vivos e sua diversidade é um dos fatos que demonstra a riqueza do ambiente. É importante que se quantifique o número de elementos por metro². Este conhecimento nos mostra a capacidade de suporte deste ecossistema. Esta informação pode nos ser útil quando precisamos decidir os consórcios dos cultivos que pretendemos montar. A imitação desta estratégia pode garantir resultados produtivos diversificados. Além de diminuir os riscos da não produção. 


· A altura máxima dos elementos no ecossistema natural – Esta dimensão mensurável nos remete a buscar entender o que a altura das plantas pode nos trazer de informações como estratégia de seleção ou escolha na montagem dos roçados cultivados. A partir deste conhecimento pode-se decidir quais as grandes árvores que vão poder fazer parte do agroecossistema cultivado. Árvores menores do que as existentes na paisagem pode ser tranquilamente utilizadas, mas, maiores que as da paisagem não devem ser escolhidas, pois a estrutura do solo, sua fertilidade talvez não consiga atender a demanda dessas plantas. 


· Quantidade de matéria orgânica por metro² - A quantidade de matéria orgânica em uma paisagem nos traz algumas informações que podem nos servir de guia para as áreas cultivadas. Quando a natureza combina a quantidade e a diversidade desta matéria orgânica o ambiente fica com uma riqueza extraordinária. Este entendimento e percepção pode nos ajudar no planejamento da fertilização de áreas cultivadas. Uma boa estratégia para se conhecer a quantidade de matéria orgânica que faz retorno ao solo é a pesagem. Marca-se uma área com 1 metro², e junta toda a matéria orgânica desta área e realiza-se a pesagem. 


· A espécie ou espécies que mais dominam o ambiente – A espécie que está no domínio do espaço demonstra determinadas qualidades do ambiente para aquele tipo de planta. Com esta observação reconhece-se a capacidade de tolerância a uma possível preferência pelas características percebidas na planta dominante. Com esta observação também se pode conhecer a aptidão do ambiente para a instalação de uma possível monocultura (não recomendada pela Permacultura). 

· A presença e o comportamento dos animais no sistema – A observação do comportamento dos animais selvagens no habitat natural também é um grande recurso de aprendizagem. Se observarmos, os ambientes onde eles se alimentam livremente, e identificamos as espécies de plantas que lhes servem de alimento estas informações podem nos ensinar que bases botânicas poderão utilizar na alimentação dos animais criados. Da mesma forma, a presença de determinadas espécies animais podem também nortear a decisão de quais os animais podem ser criados na proximidade daquele ecossistema. O comportamento de descanso, de liberdade, de tranquilidade tendo todas as suas necessidades e hábitos atendidos devem ser observadas e copiadas nas suas essências. 




Se esta capivara (da imagem) consegue se alimentar nesta área, e seu porte é quase idêntico ao tamanho de um porco, logo este ambiente tem uma boa chance de alimentar suínos a partir da vegetação local. Na imagem ao lado observamos um pato nativo conhecido na região nordeste do Brasil como paturi, ele se encontra em um ambiente natural demonstrando que se criarmos patos neste mesmo ambiente poderemos ter sucesso na criação, pois as condições naturais facilitam o desenvolvimento da criação. 

O sítio é cheio de informações em cada sujeito natural que compõe o ecossistema, e devemos aprender a ler tudo isso muito bem. A paisagem natural deve nos inspirar para criarmos estratégias produtivas. 

· Direcionamento da copa das plantas – A posição da copa em relação ao vento é outro indicativo de paisagem de aprendizagem, ela nos orienta de que lado existe uma constância de direção dos ventos. Com esta informação posso planejar os quebra ventos necessários para a área do plantio. Além de demonstrar a posição da incidência do vento ainda consegue nos mostrar a intensidade desse vento, se é forte ou mediano. Facilitando para saber qual tipo de quebra vento que se deve instalar. 



· Estágio sucessional da vegetação – Na observação da paisagem poderemos também saber em que estágio de desenvolvimento está aquele ecossistema. Esta informação demonstra-me as características do processo sucessional daquele ecossistema, quais plantas se adéquam para ajudar na instalação da minha agrofloresta. 

· Presença de áreas alagadas na paisagem – É um ótimo indicativo, demonstrando que existem na proximidade áreas que podem servir para plantio de cultivos que se desenvolvem na água (arroz, agrião de água, etc.), além da certeza de construção de reservatórios naturais como barreiros, açudes entre outros. Outra, alternativa para estas zonas é a possibilidade para a criação de animais de áreas alagadiças, como rãs, escargos, entre outros. 



· Presença de plantas de solo ácido – A presença de plantas de solos ácidos concentradas em determinadas áreas da paisagem também é um ótimo indicativo, nos alertando da necessidade de correção do solo para os cultivos, ou de outra forma, saber escolher plantas que tolerem a acidez do solo. Várias plantas são grandes indicadoras da presença da acidez. 


A produção de conhecimento acontece a partir da curiosidade de querer conhecer, de ter informação sobre o elemento ou sistema. Entender o que se vê a partir da dedução, de uma lógica, de uma interpretação é um dos caminhos para a se lê a paisagem. Acredito que esta estratégia pode ajudar muitos agricultores a aprender a partir do tempo de acomodação dos elementos que compõe uma determinada paisagem natural. É mais uma forma de tentar garantir os resultados produtivos com menos impacto possível. Não precisamos inventar a roda, a natureza pode nos ensinar quase tudo que precisamos para se manter no equilíbrio do sistema que estamos envolvidos. Antes de fazer primeiro aprenda com a mestra maior a “NATUREZA” e suas conexões aleatórias e em muitas vezes contraditórias e sem a lógica humana, mas simplesmente natural. 

22 de fevereiro de 2012

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