segunda-feira, setembro 1

Planejando para colher todos os dias. Café, almoço e janta sendo colhidos todos os dias na pequena propriedade rural

Antônio Roberto Mendes Pereira

A necessidade de comer 03 refeições durante o dia faz parte da nossa cultura, mas nem sempre produzimos estes alimentos, temos normalmente que complementar estas refeições com alimentos comprados, vindo de fora da propriedade rural. A intenção da Permacultura na zona 01 e 02 é poder ter durante todos os dias do ano alimentos que possam atender a esta demanda ininterruptamente, atender a autossuficiência alimentar. O que devo plantar vai depender dos hábitos alimentares da família e de alguns fatores ambientais ligados ao clima, solo, disponibilidade de água, etc.. A disponibilidade desses alimentos também está diretamente ligada ao tamanho da família, logo se exige um planejamento, uma projeção do que se quer e o que o ambiente pode oferecer.

A intenção deste texto é trazer dicas e estratégias que possam ajudar na construção deste planejamento produtivo, tendo como orientação “O poder colher todos os dias” ininterruptamente alimentos limpos e sadios. Será mesmo isso possível? Se for possível o que fazer para ter esta fartura garantida permanentemente? Como fazer para ter sempre?

O PRIMEIRO PASSO PARA ALCANÇAR ESTE CAMINHO

Vamos primeiro suprir a necessidade de ter mais informações sobre as culturas e os animais que vão compor o ambiente da zona 01 e 02 que são justamente as áreas dedicadas à segurança alimentar da família. Estas duas zonas deverão ser encarregadas de suprir estas colheitas diárias, pelo menos 03 vezes ao dia. O conhecimento de tempo, necessidades de luz, de água e de nutrientes, irá ser a base para a projeção deste calendário de plantio. Seria interessante fazer a assembléia das plantas e dos animais que poderão fazer parte do ambiente cultivado como uma colheita de informações para a tomada de decisões no planejamento. Vejamos um exemplo:

Assembléia dos elementos de uma propriedade é a tentativa de entender como criar relações entre os elementos que irão fazer parte do agroecossistema que se está tentando edificar. Identificar as necessidades destes elementos em questão, as funções que estes elementos irão desempenhar dentro do sistema e qual as produções esperadas por estes elementos é o que a assembléia de elementos tenta levantar e analisar através de relações premeditadas, isto é no papel do planejamento.

Identificar a necessidade do elemento que se está querendo introduzir no sistema deve fazer parte do planejamento, não esquecendo também de identificar qual a função que este elemento pode executar dentro do sistema e qual a sua produção prevista. Para entender esta lógica podemos apresentar o exemplo de um pé de alface como exemplo da aplicação desta lógica técnica de planejamento produtivo:

Para que a ALFACE possa se comportar naturalmente é necessário:


CARACTERÍSTICAS –                             Planta de pequeno porte
                                                            Exigente em temperatura adequada
                                                            Solo fofo e rico em matéria orgânica
                                                            Não tolera vento

NECESSIDADES –                                   Textura do solo areno-argiloso
                                                            Água de boa qualidade e em quantidade suficiente
                                                            CO² para realizar fotossíntese
                                                            Minerais os mais variados e disponíveis
                                                            Luz solar
                                                            PH entre 6,0 e 6,5
                                                            Solo úmido quase todo dia
                                                            Espaço suficiente para crescer e não estiolar
                                                            Boa bioestrutura

FUNÇÕES:                                            Alimentar seres humanos, animais e insetos polinizadores
                                                           Diversificar o ambiente
                                                           Captar energia para fotossíntese, liberando 0²
                                                           Captura de carbono
                                                           Embelezamento
                                                           Armazenar minerais e vitaminas

PRODUÇÃO:                                        Folhas comestíveis
                                                          Princípios ativos medicamentosos
                                                          Sementes
                                                          Matéria orgânica para compostagem


Precisamos saber o tempo que cada cultivo leva para proporcionar que seus produtos possam ser colhidos. E cada cultura tem seu tempo a depender também do clima de cada região. Estes dados nos ajudam a planejar o plantio para não faltar. Entre uma semeadura e outra se precisa atender a longevidade da planta e seu período de oferecer seus produtos prontos para serem colhidos.

Outros dados que precisamos saber é qual o espaço necessário para atender o crescimento das culturas. Identificar a quantidade de luz, para que a fotossíntese não pare de acontecer durante todos os momentos de presença de luz. Não podemos esquecer que 35% de sombra é um bom percentual para que as culturas possam se desenvolver naturalmente.

Seria ótimo se toda casa na zona rural ou urbana pudesse produzir parte de seu alimento de forma constante. Observe a imagem abaixo e imagine seu bairro ou comunidade rural dessa maneira. Com certeza a ida ao supermercado ou feira seria mais espaçada.



A garantia do atendimento da demanda de água é muito importante, pois todas as culturas bebem água todo o dia. Sem este liquido fica difícil a absorção dos minerais pelas raízes das plantas. A presença de água no solo facilita a formação de uma solução (mistura de água mais os minerais) que irá atender a demanda das plantas. Para melhorar o entendimento um pé de alface consome em média do dia que foi semeado até a colheita mais ou menos 12 litros de água no nordeste do Brasil. Faça agora uma comparação com outras plantas levando em conta o tamanho das demais quando comparado com um pé de alface. Lembre-se este dado é apenas um indicador aproximado de consumo, pois tudo depende do clima do manejo dado às plantas entre outros. 

Todas estas informações sobre a água é para não ocorrer surpresas de falta ou excesso durante o cultivo. A falta ou o excesso podem prejudicar todo o sistema que está sendo montado para se ter de forma quase que permanentes alimentos diários.

Todos os cálculos devem levar em conta a demanda da família em alimentos. Evite não fazer estes cálculos eles são a base para a projeção permanente.

As relações entre os elementos é outro grande segredo para ter sempre colheitas fartas e permanentes. As conexões facilitam este ter sempre. Encontrar ou identificar o que pode está junto ao mesmo tempo, ou como se diz no popular “Junto e misturado” ocupando o mesmo espaço, água, adubo e luz são estratégias fantásticas que enriquecem o planejamento. 

Outro recurso que pode ser utilizado é o de empilhamento de plantas e de tempo que nada mais é que uma das ferramentas ou estratégias para diminuir o uso do espaço e ter mais elementos neste mesmo espaço durante o mesmo uso do tempo.



Este planejamento não deve acontecer apenas na zona 01, mas também na zona 02 que é também zona de segurança alimentar para a família. Logo o pomar também deve passar por um planejamento de escolha das espécies, dos espaço disponivel e dos demais componentes produtivos que fazem parte de todo ciclo produtivo de cada espécie escolhida, além do consumo da família nestes alimentos.

Alguns indicadores técnicos quantitativos estão disponibilizados na tabela abaixo para facilitar os cálculos e projeções do tamanho da área necessária para a produção de algumas especies cultivadas pela maioria dos agricultores da nossa região e que fazem parte de seu cardápio diário.


O escalonamento das plantas deve tentar seguir a lógica natural por exemplo que as bananeiras utilizam para que não falte bananas. De tempo em tempos o pé de bananeira emite um novo perfilhamento que irá futuramente assumir a produção do cacho seguinte, após a colheita do mais maduro. Logo a lógica a ser seguida no planejamento da área é ter da mesma espécie várias plantas porém de tamanhos diferenciados garantindo desta forma que não venha faltar produção. Cabe a você descobrir qual o período de tempo que irá precisar seguir entre um plantio de uma mesma cultura para que não quebre a lógica da produção sequenciada ou escalonada.

A observação e o registro são necessários para a construção deste escalonamento ou sequencia produtiva. Se a família consome um pé de alface toda semana, ela irá precisar ter toda semana mudas de alface no tamanho ideal para ser transplantada toda semana. Um pé de tomate que passa alguns meses produzindo tomates não irá necessitar ser plantado toda semana. Se minha família consome 2 kg de macaxeira toda semana irei precisar plantar anualmente 52 covas de macaxeira, pois na minha região uma cova de macaxeira chega produzir entre 2 kg a 3 kg. Logo, se minha família consome 2 kg e um ano tem 52 semanas irei precisar plantar 52 covas de macaxeira que irá produzir em média 104 kg. Porém nunca de uma única vez, seria prudente e lógico para que toda esta produção não aconteça de uma única vez escalonar a mesma plantando a cada 4 meses 20 covas de macaxeira que vão atender a demanda dos 2 kg semanal, permitindo ainda um percentual de sobra para qualquer inconvenientes, pois necessito de 52 covas e não de 60. 


Como percebemos não é difícil e nem impossível ter seu supermercado natural garantindo toda ou uma boa parte da alimentação da família. É necessário inicialmente um pouco de esforço, mas depois que encontrar os primeiros números de quantidade de tempo entre um plantio e outro e o tamanho das áreas necessárias você terá um calendário adequado a realidade do seu clima, da sua área e da demanda de consumo da sua família. Não permita não ter e nem deixe que falte, planeje-se.


domingo, julho 27

A natureza se encolhendo - O enxugamento natural da natureza na entrada do verão no semiárido nordestino

Antônio Roberto Mendes Pereira

No início do inverno no sertão, acontece uma explosão de vida. Em poucos dias o que estava seco e quase sem vida torna-se verde e com uma abundância de vida estupenda. Não falta comida para todos os seres que vivem no espaço que estava passando pelo período da seca. Muitos insetos chegam ao seu máximo de reprodução, carecendo agora da presença de predadores naturais para colocar estas espécies em níveis toleráveis no ambiente.


Momento este também, que os agricultores aproveitam desta explosão de fartura para fazer suas reservas alimentícias através dos seus cultivos. O solo úmido propicia o crescimento de várias espécies de cultivos que servirão de alimentação aos homens e aos animais criados pelas famílias.

Quanto mais se entender deste momento, mas se pode aproveitar deste presente pontual da natureza. A natureza neste momento esbanja vida e recursos ou providencias para sustentar mais vida. Neste momento deveríamos saber armazenar parte de toda esta riqueza natural para os momentos de escassez vindouros. 

Deviríamos ENTENDER que esta fase é passageira e que nem sempre acontece com tanta intensidade, logo deveríamos saber guardar, acumular, criar reserva para o depois. Mas parece que em alguns momentos esquecemos-nos das outras fases vindouras e passamos os pés pelas mãos, cometendo enganos ou erros diante destes fatos ou momentos de ofertas naturais. Achamos que de agora em diante pode ser ou vai ser diferente, que o verde e a umidade da fartura vão continuar até mais adiante no tempo. E ao invés de planejar a diminuição do que pretendemos ter e manter terminou por tomar a decisão de manter todos os elementos criados e plantados na mesma quantidade e da mesma forma. E com este procedimento terminamos comprometendo nossas pretensões.

Até parece que se está passando esta fase pela primeira vez, a confiança humana ultrapassa a capacidade da natureza de manter o ambiente. Vários são os exemplos que compravam tal comportamento, vejamos alguns que afirmam tal atitude.

· Uma determinada família cria 50 cabeças de gado. E que durante o período do inverno percebe-se que esta propriedade ou as partes da propriedade que estão dedicadas para alimentar toda esta quantidade de animais é suficiente, se faz capaz. Mas como dito anteriormente esta fase é uma fase privilegiada, é um momento que com certeza não irá permanecer de forma permanente. Mas, mesmo percebendo as mudanças no ambiente, insistisse em manter as mesmas quantidades. Muitos produtores durante esta última seca tentou manter a mesma quantidade de animais que tinha enquanto a natureza encolhia suas ofertas de alimento e água. Esta tomada de decisão levou muitos produtores a ter prejuízos financeiros e econômicos, pois perderam vários animais por morte ou por ter que vender por preços muito abaixo, porque os animais já não possuíam mais um potencial de carne para pegar bons preços, sua carcaça estava comprometida.


· Esta mesma lógica se utiliza para quem vive de cultivos, que ao término do inverno deve-se preparar-se para acompanhar a lógica da natureza de ir encolhendo as áreas de produção, ou melhor, ir hibernando estas áreas para a próxima estação das águas ou da fartura. Se a propriedade tiver uma segurança hídrica a lógica é diferente, pode-se até manter, mas pense muito bem antes de planejar em aumentar. Qualquer aumento precisa ser muito bem pensado.

· Durante o início do verão a natureza vai encolhendo umas coisas e aumentando outras, vejamos algumas dessas afirmações:


Como se preparar para estas mudanças sem ter prejuízos inesperados ou repentinos? Tudo isto pode ser planejado, pensado, pois é quase como um padrão natural que ocorre quase sempre. É quase que repetitivo, logo pode ser mais bem planejado.

SUGESTÕES

1. Reduza sua área de atuação produtiva a partir da capacidade de suporte hídrico que possui na propriedade.

2. Tente manter a sua de segurança alimentar nas zonas 01 e 02.

3. Reduza o tamanho dos animais criando ou segurando outras espécies de pequeno porte, que consomem pouco alimento e água.

4. Com as plantas siga a mesma lógica, plantas maiores bebem mais água, logo as reservas irão diminuir mais rapidamente. Logo dê preferência para manter plantas de portes pequenos e quanto mais nativo melhor, pois estão adaptadas ao clima da região.


5. Proteja mais os animais da radiação solar direta, o não uso desta estratégia contribui para um consumo menor de água para manter o corpo em uma temperatura confortável.

6. Nos locais de plantios busque utilizar ao máximo uma cobertura para o solo, protegendo-o dos raios solares diretos e dos ventos. Imite o comportamento das plantas caducifólias que soltam suas folhas para diminuir a evaporação da água que esta retida no solo.

7. Planeje muito bem a reprodução dos animais, para não ter surpresas desagradáveis para manter todos os recém nascidos. Lembrem-se eles irão crescer e com este crescimento todo consumo também se elevam.

8. Se quiser manter os animais durante a época de escassez armazene forragem para este período, existem várias tecnologias que ajudam neste armazenamento para uso posterior.


9. Identifique a demanda de água de cada espécie animal diário e se puder descubra também o consumo das principais espécies de plantas que se irá manter durante a estação do verão. Os milímetros de chuva necessários destas culturas poderão ajudar nestes cálculos.


10. Descubra a taxa de evaporação do ambiente por dia.

11. Cubra ao máximo as fontes de água da radiação solar direta, este comportamento ajudará na diminuição da evaporação.

12. Se perceber que o inverno vai ser curto, invista não em cultivos para você, mas para alimentar o solo.

A forma de enfrentar o encolhimento da natureza é também aprendendo a encolher nossas atividades produtivas. Respeitando a sabedoria da natureza em dar um descanso para se refazer do desgaste produtivo da fase de abundância. Isto é saber utilizar a sabedoria da natureza em nosso favor, é aprender fazer tendo como mestra a natureza e todas suas relações de interdependência. Acompanhar os ritmos e ciclos da natureza é saber quando deve e quando não deve se exceder.



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