quarta-feira, maio 1

Eficiência gerencial e operacional da pequena propriedade rural através do uso da escala humana - O que juntos somos capazes de fazer e produzir

Antônio Roberto Mendes Pereira 

Saber utilizar bem o tempo e a energia da família na gerência e operacionalização produtiva da propriedade é de fundamental importância, pois sem este conhecimento organizacional desperdiçaremos grande quantidade de energia e tempo no alcance dos rendimentos produtivos necessários para a manutenção da família. 




Conceituando escala humana – Diferente do conceito utilizado pela arquitetura e pelas artes, baseada no corpo humano. A escala humana aqui tratada: É a quantidade de trabalho que um ser humano é capaz de desenvolver normalmente durante um dia, usando a racionalidade do tempo e das energias necessárias para manter de forma produtiva a atividade sobre sua responsabilidade. 

Não podemos esquecer que a Permacultura é um método holístico para planejar, atualizar e manter sistemas de escala humana (jardins, vilas, aldeias e comunidades) ambientalmente sustentáveis, socialmente justos e financeiramente viáveis. 

A Permacultura, além de ser um método para planejar sistemas de escala humana, proporciona uma forma sistêmica de se visualizar o mundo e as correlações entre todos os seus componentes. Serve, portanto, como meta-modelo para a prática da visão sistêmica, podendo ser aplicada em todas as situações necessárias, desde como estruturar o habitat humano até como resolver questões complexas do mundo empresarial. 

Permacultura é a utilização de uma forma sistêmica de pensar e conceber princípios ecológicos que podem ser usados para projetar, criar, gerir e melhorar todos os esforços realizados por indivíduos, famílias e comunidades no sentido de um futuro sustentável. 

Conhecer o que se precisa fazer, onde vai ser feito e quantas pessoas são necessárias, pode fazer a diferença em qualquer planejamento. Quem sabe se este não é o segredo para a garantia do sucesso produtivo das atividades que a família desenvolve ou vai desenvolver na propriedade. 

O tamanho das propriedades não deveria ser um problema a ser enfrentado, talvez o problema devesse ser o tamanho real da área que vai ou já é trabalhada pela família. A determinação de forma precisa da quantidade de área que se vai utilizar é necessário saber com bastante antecedência. E para este cálculo é necessário conhecer as necessidades reais na dieta alimentar da família e da sua produção para o mercado. Estas informações são imperiosas para poder se fazer os cálculos necessários de cada atividade que precisa ser trabalhada. 

Porém, a primeira energia a ser trabalhada é a força de vontade para querer fazer e o gostar do que vai ser necessário fazer. Identificar em que cada componente da família a aptidão e o jeito para ser responsável pela atividade é um dos primeiros componentes para este planejamento. A idade também tem uma grande influência na gerência das atividades que lhe for entregue para a operacionalização. 

OUTRAS VARIÁVEIS QUE FAZEM A DIFERENÇA PARA O EQUILÍBRIO DO SISTEMA 

· A assembléia dos elementos – A família precisa elencar o que irá fazer parte da propriedade no campo produtivo, e a partir destas escolhas, criam-se as conexões necessárias para que todos os elementos possam se ajudar mutuamente. O desperdício ou resíduo de um deve ser alimento ou insumo para a vida, produção ou manutenção de outro (s). 

A estrutura deve formar uma teia de relações onde tudo tem uso e não se cria lixo ou desperdício. Se o sistema que está sendo montado possuir desperdício ou sobras sem conexão com outros elementos, este vai gerar lixo e conseqüentemente poluição. Algo precisa ser feito para reconectar este desperdício a outro elemento do sistema. Reposicione este elemento para que isso não venha ocorrer. 


Na imagem acima, pense como conectar todos os elementos que compõe esta propriedade. O que fazer para aumentar as relações entre os elementos com a intenção de diminuir gastos de tempo, energia e até recursos econômicos? 

Representação gráfica de teias de relações entre vários elementos 

· O Zoneamento e o seu dimensionamento – O gasto com energia para a prática da Permacultura sempre é uma preocupação permanente, buscar formas de se produzir o necessário com menos tempo e recursos é a pretensão que se pretende alcançar. E para que isto possa acontecer a Permacultura divide a propriedade em Zonas de intervenção, onde o que limita uma Zona da outra é a intensidade de uso dos elementos que irão compor este zoneamento. Logo, um elemento que recebe muitas visitas ou intervenções durante o dia, deve está o mais próximo possível da casa. Esta estratégia otimiza e aperfeiçoa o uso do tempo disponível, o uso de mão de obra e conseqüentemente reduz o gasto com energia para manter o elemento ativo e produtivo. 

A Permacultura trabalha com 06 Zonas de intervenção (Zona 0, 1, 2, 3, 4 e 5). Leia texto neste blog “Reduzindo a ocupação do solo”. 

O tamanho de cada Zona vai depender do número de pessoas que compõe a família e das suas necessidades produtivas para o consumo familiar e para atender as possíveis saídas vendas para o mercado, além de se ter duas zonas preocupadas na preservação e manutenção da paisagem natural da região. Devido a intensidade de uso de cada Zona a quantidade de vida conectada também é grande e está sempre sendo projetada para que este número aumente, melhorando e intensificando a biodiversidade do agroecossistema. Aumenta-se o número sem aumentar trabalho para a família, a estratégia são as conexões. Insista na procura das conexões, das relações entre os elementos, este é um dos grandes papéis da Permacultura, aumentar as conexões, criando novos designs de arrumação. 

Aumentar as relações entre os elementos garante a sustentabilidade do ambiente, além de aumentar as fontes de equilíbrio e segurança no âmbito alimentar, energético, hídrico e de nutrientes, de forma diversificada. 


· Os percursos lógicos das atividades diárias – Por onde início a execução das minhas obrigações? Qual logística que devo utilizar no percurso para a operacionalização da atividade? Estas respostas nos ajudam a montar uma estratégia para minimizar o gasto de tempo e energia, melhorando a eficiência e a eficácia do trabalho diário. 

Muitas vezes para executar nossas tarefas diárias andamos demasiadamente e por vezes não conseguimos executar todas as obrigações. Muitos desses casos estão ligados ao mau planejamento das nossas ações. Temos sempre que otimizar nossa passagem pelo itinerário ou percurso escolhido, ir fazendo algumas tarefas, voltar fazendo outras e até recolhendo o que for necessário trazer para a casa. É preciso decidir entre as coisas que vão ser feitas, quais as mais necessárias e urgentes executando-as primeiro, levando sempre em conta as distâncias e os trajetos que precisam ser feitos, para não ficar andando aleatoriamente. 



· O horário para a efetuação do manejo diário - O sol e o calor são desconfortos que podem atrapalhar desencadeando um fazer mal feito. Sempre procure as horas mais amenas do dia para realizar as tarefas. Diminua sua exposição ao sol. Outra estratégia é ter sempre áreas de sombra intercaladas nos acessos a todas as áreas de intervenção. Evite grandes espaços sem áreas de sombra. A eficiência também está ligada ao conforto térmico na execução das tarefas diárias. Até os animais buscam refúgios para escapar do excesso de luz e calor durante os dias quentes. 


· Priorização do que deve ser feito primeiro, depois e assim sucessivamente. Incluir neste planejamento também as atividades da ORNA, ERNA (Ocupação Rural Não Agrícola e Empreendimento Rural Não Agrícola) entre outras como o tempo da escola, do lazer e do descanso. 

· O uso das máquinas e equipamentos – Muitos produtores aderem a aquisição de máquinas para minimizar o uso de mão de obra e otimizar o tempo no manejo dos cultivos. Porém, muitas vezes o uso de maquinaria não compensa o uso e o custo benefício da mesma. Em muitas situações o uso da energia aplicada para seu funcionamento e operacionalização não compensa na produção da energia resgatada. Atualmente para no sistema moderno de produção gastasse 5 a 8 KCAL para produzir 1 KCAL, onde está a lógica racional deste modelo de produção? 

Logo se faz necessário conhecer como utilizar estas máquinas na racionalidade energética, econômica e principalmente na ambiental. 



· Use mais os recursos biológicos – Outra grande estratégia é saber utilizar os recursos biológicos para realizar uma série de trabalhos na propriedade. Muitos animais são considerados tratores vivos, como por exemplo: o porco, as galinhas as minhocas entre outros. Tarefas como revirar a terra, controlar insetos, controlar ervas, anunciar o amanhecer do dia, coalhar leite, decompor matéria orgânica, cobrir o solo, repelentes naturais, entre outros são funções que os animais e microrganismos podem desenvolver e produzir no agroecossistema, precisando apenas para isso que se criem as condições necessárias. Dê condição para que a natureza possa contribuir de forma exclusiva na realização das tarefas diárias que precisam acontecer, aceite a parceria. Inicie com pequenas tarefas e vá aumentando estas combinações. 

· Saber os resultados que se pode e deve alcançar – Uma das melhores coisas para execução de qualquer tarefa é saber com muita precisão o que se quer? Como se quer? Quantidade do que se quer? E onde se quer? Com estas informações podemos fazer o levantamento de todo material necessário, o tempo que vai ser necessário para a execução e a quantidade de mão de obra que se vai precisar. Com isto podemos ser eficientes e eficazes no que se quer operacionalizar. Os resultados a ser alcançados estão diretamente ligados as respostas destes questionamentos. 

· Repensem suas necessidades - Diminua seu consumo, adéqüe-se a uma dieta o mais local e natural possível. Importar insumos e alimentos de fora da sua propriedade normalmente gera gastos com energia, tempo e dinheiro. Atualmente o cardápio alimentar humano está cada vez mais centrado em alimentos beneficiados e muito deles com certeza viajam muito para chegar até sua mesa. Ir comprar estes alimentos exige da família tempo e energia, muitos agricultores viajam horas para chegar a estes mercados, onerando ainda mais o valor destes produtos. Uma dieta adequada e que leve em conta o ambiente que se tem, é imperativo. Comer o que se produz o mais perto possível da casa é a lógica para uma economia e equilíbrio local, seja um PROSSUMIDOR (produtor e consumidor). Tornar-se auto-suficiente em alguns insumos alimentares é uma boa decisão para tornar a propriedade mais sustentável. A racionalidade na produção de alimentos para a família é uma grande estratégia para se produzir apenas o necessário deixando o restante da área para que a natureza possa decidir o quer inovar, acrescentar e até repovoar em termos de biodiversidade. 

· O mutirão – É outra grande estratégia para melhorar a eficiência do trabalho que ser quer fazer. Aumentar a participação de mais pessoas na execução de um trabalho diminui tempo além de ficar menos pesado e cansativo para a maioria. Esta estratégia já é muito utilizada por várias comunidades rurais, e alcançam ótimos resultados, além de aumentar e fortalecer as relações da comunidade e entre as famílias. 


Faça mais calo na cabeça do que nas mãos. Essa é a maior mensagem deste texto. Faça sua parte e deixe que a natureza faça a dela. Aumente as: 

· Combinações 
· Conexões 
· Parcerias 
· Interdependência 

O uso destas estratégias irá proporcionar que as pessoas trabalhem menos, façam o necessário, de forma rápida e eficiente, sobrando tempo para apreciar a natureza.


segunda-feira, abril 1

Dicas de manejo permacultural para os caprinos

Antônio Roberto Mendes Pereira 

A tentativa de produzir proteína animal de forma ecologicamente correta, é o objetivo de muitos produtores que utilizam a agroecologia como ciência norteadora para a implantação e operacionalização do seu sistema produtivo. E a Permacultura é um dos métodos operacionais para a prática destes princípios. A demanda por proteína animal produzida com menos energia e com menos uso de insumos externos é à base de preocupação deste texto. 


Uma crescente população vem demandando diariamente por alimentos sanos e saudáveis, e que prolongue a vida das pessoas. Esta demanda vem forçando de forma natural que os produtores de alimentos repensem sua forma de produzir, de beneficiar e de vender. 

Não queria trazer aqui na escrita deste texto somente a preocupação da produção de produtos orgânicos para o mercado, já que este tipo de produto está em alta, mas trazer a preocupação da produção de produtos limpos e ambientalmente corretos como postura idônea e responsável de qualquer produto agropecuário. Não ser atraído apenas pelo plus do preço pago pelos orgânicos no mercado, mas pela preocupação com o meio ambiente e com o futuro do mesmo. 

A PRESENÇA DOS ANIMAIS NO AGROECOSSISTEMA 

Não podemos esquecer que os animais devem compor a estrutura produtiva sustentável de todas as propriedades rurais. Sem a presença dos mesmos, muitos serviços ambientais necessários deixaria de acontecer. Os animais são grandes recicladores de matéria orgânica, além de aumentar a concentração dos minerais durante a realização do seu metabolismo alimentar. Muitos dos minerais e sua mistura vão ser encontrados nas feses destes animais de forma concentrada. 

Portanto a escolha das espécies que vão ser criadas nas propriedades precisa seguir certos critérios de adequação. O clima é um limitante na escolha destas espécies que irão ser criada, logo este critério precisa ser respeitado. 

Uma espécie animal que me chama muita atenção para os climas áridos e semiáridos são os caprinos. São animais inteligentes, adequados para os ambientes secos e quentes, tem uma larga dieta, alimentando-se de uma infinidade de vegetais frescos e secos, e além de tudo são muitos resistentes as mudanças de temperatura do meio onde vive. 

DICAS PARA O MANEJO DOS CAPRINOS 

É uma das espécies mais indicadas para a criação nos sertões e nas propriedades que ainda não estão diversificadamente evoluídas. Não é recomendado para ser criadas em áreas úmidas. É uma espécie contrária ao excesso de água e temperaturas com alto grau de umidade relativa. 

O grande limite para a criação dos caprinos de forma ecológica refere-se à produção de forragem e grãos na sua alimentação, face ao pequeno tamanho de muitas propriedades. A escassez de rações orgânicas para suplementar na seca, à baixa fertilidade do solo nas áreas escolhidas para pastagens, ao pouco uso da prática da adubação verde e ao clima desfavorável em determinada época do ano. 

A tentativa de plantar cereal de forma orgânica, como milho, soja, e outros vegetais para a alimentação dos animais necessita de uma certificação externa que comprove o sistema de produção que está sendo utilizado. Desta forma tornando-se inviável e em muitos casos não competitivo, que ao se tornar certificado alcançará preços mais elevados para os mercados internos e externos. 

Nos sistemas de produção orgânica de carne, recomenda-se que a alimentação destes animais seja equilibrada e que supra todas as necessidades desta espécie animal. Qualquer suplemento que venha ser oferecido deve ser isento de antibióticos, hormônios e vermífugos. São também proibidos aditivos, promotores de crescimento, estimulantes de apetite, ureia etc. 

Uma das melhores formas de alimentar estes animais é criando espaços de pastos naturais bastante diversificados que se possa manejar através de rodízio de piquetes. Espaço este, onde os animais passam determinado período e logo após mudam de piquetes fazendo um rodízio com as demais áreas dos piquetes. Quanto menos intervenção humana melhor. Permitir que estes animais se criem, é ainda a melhor opção para quem quer praticar uma criação que atenda aos moldes de uma produção de animais orgânicos com menos investimentos possíveis. 

Outra forma complementar de manejo orgânico de criação é com o uso de pasto cultivado, utilizando-se como estratégia o pastoreio rotativo ou pastoreio Voisin onde a definição utilizada de pastoreio é “O encontro entre o animal e o pasto”. O pasto e o animal que pasta são dois seres interdependentes e mutuamente necessários, um não vive sem o outro, ambos se complementam. Se o encontro for harmonioso, ambos saem fortalecidos, se o encontro é conflituoso ambos definham ou perecem. 


O pastoreio Voisin nada mais é que uma mini-migração dos animais, orientada pelo homem. O método, por ser extremamente natural responde à concepção ecológica, pois, com ele, a natureza “brota e rebrota” cada dia mais, como um renascer da vida natural. Esta tecnologia tem como objetivo aumentar a produtividade dos pastos e seu valor biológico, podendo, ainda, acelerar o ganho de peso nos animais. 

Para executar o pastoreio rotativo é indispensável considerar as seguintes premissas estabelecidas por André Voisin, sendo duas para os pastos e duas para os animais. 

1. Lei dos Pastos: Tempo de ocupação – Retirar os animais do pasto a tempo, evitando a permanência deles quando do surgimento do rebrote. 

2. Lei dos Pastos: Tempo de descanso – Deixar descansar a área de pasto o período suficiente para que o mesmo possa se recuperar para um novo ciclo de consumo dos animais. 

3. Lei dos Animais – Permanência dos animais no pastoreio não deve superar a três dias de cada vez. Isso porque, ao final desse prazo, as dejeções e as plantas estão pisoteadas demais, formando uma massa mal cheirosa, que os animais passam a rejeitar para o consumo. 

4. Lei dos Animais – O pasto desejável, para incrementar o consumo, é aquele que atinge entre 15 cm a 25cm de altura. É a altura ideal, que enseja o maior consumo com mais economia e qualidade. 


Uma intervenção humana aceitável no manejo alimentar dos animais é o manejo da caatinga. 


A vegetação de caatinga é conhecida do sertanejo, sendo sua companheira e auxilia na sobrevivência no semiárido, produzindo alimentos, forragem para os animais, produtos madeireiros e disponibilizando uma vital fonte energética, tanto para consumo doméstico quanto para atividades produtivas. O manejo deste bioma deve fazer parte da vida cotidiana dos habitantes, mantendo um sistema vivo, equilibrado produzindo de forma permanente. 

A vegetação de caatinga tem um porte geralmente baixo e apresenta enorme capacidade de rebrota quando cortadas e reagem rapidamente às primeiras chuvas. É uma característica que precisa ser trabalhada para ajudar na montagem de sistemas produtivos de animais orgânicos. Segundo os especialistas, uma vegetação cortada drasticamente leva de 9 a 14 anos para voltar ao porte original, inclusive em biomassa. Isso evidência a forte resiliência, ou capacidade de autoafirmação biológica, embora seja esperado um empobrecimento gradativo da biodiversidade se não forem tomados cuidados que minimizem esse efeito adverso. 


MANIPULAÇÃO DA CAATINGA PARA FINS DE PASTOREIO 

Segundo os pesquisadores a vegetação da caatinga produz, em média, seis toneladas por hectare ao ano de fitomassa nas partes aéreas, sendo duas toneladas de madeira e quatro toneladas de folhas, flores e frutos. Dessas quatro toneladas, 90% advêm de espécies lenhosas, sendo que desse percentual, até 70 % das espécies podem ser potencialmente forrageiras (Araújo Filho, 2006). 

Diante deste potencial apenas 7,0% do total da produção de biomassa estão disponíveis para o consumo animal, sendo que na época chuvosa a disponibilidade é proveniente principalmente da rebrotação de arbustos e, na estação seca, da queda de folhas de árvores caducifólias (que solta às folhas em um determinado período). Por esse motivo, a produção pecuária na caatinga apresenta baixos índices de produtividade. 

Os níveis de manipulação da caatinga são o raleamento, o rebaixamento, associação entre raleamento e rebaixamento e o enriquecimento de áreas raleadas com espécies vegetais introduzidas. Os três princípios que tornam essa manipulação uma prática sustentável são: preservação de até 400 plantas por hectare (40% de cobertura), nível de utilização da forragem de no máximo 60% e preservação da mata ciliar em toda a malha de drenagem da pastagem. 

CONHECENDO MAIS DETALHES 

RALEAMENTO - O raleamento da vegetação lenhosa da caatinga consiste no controle seletivo de árvores e arbustos, com o objetivo de obter-se incremento da produção de fitomassa do estrato herbáceo. O preparo da área deve ser realizado na estação seca, reduzindo-se a densidade de árvores e arbustos para aproximadamente, 400 plantas por hectare, sem afetar sua biodiversidade. Devem ser mantidas as espécies de valor forrageiro, as de sistema radicular profundo e as de valor madeireiro ou paisagístico. Devem ser controlados os arbustos pioneiros, as espécies tóxicas ou que causam problemas aos animais e ao homem. 

No meio da estação chuvosa, recomenda-se o roço de todas as rebrotações das espécies que foram brocadas. Esta operação deverá ser repetida nos dois primeiros anos, para possibilitar um controle mais efetivo de espécies indesejáveis como o marmeleiro (Croton sonderianus). A manutenção da área raleada é obtida com roços na estação chuvosa e a cada 3-4 anos. No primeiro ano, o uso pastoril da área raleada só deverá ser feito após a maturação e queda das sementes das espécies herbáceas, ou seja, ao início da estação seca. 


REBAIXAMENTO - Consiste no corte (70 cm do solo) de espécies lenhosas para induzir a rebrotação de fitomassa de forragem a uma altura disponível para a escolha e consumo dos animais. O corte deverá ocorrer durante a estação seca, devendo ser rebaixadas as espécies de reconhecido valor forrageiro, tais como o sabiá, o mororó, a jurema-preta e o quebra-faca. 

Recomenda-se a retirada da madeira útil e o picotamento dos garranchos no local para decomposição e incorporação da matéria orgânica. Na estação das chuvas seguinte, as rebrotações dos arbustos não forrageiros devem ser roçadas para controle das espécies indesejáveis. Ao fim do período seco seguinte, proceder-se-á ao corte das rebrotações das espécies lenhosas forrageiras. Há, ainda, a opção de manter até dois ramos por toco, possibilitando também o desenvolvimento de até dois caules por planta para produção futura de madeira ou exploração da florada para a produção de mel. 

ENRIQUECIMENTO - Dos três métodos apresentados, esse é o único que apresenta aumento na disponibilidade de forragem, pois consiste na introdução de outras espécies dentro de áreas raleadas. A aplicação do método é iniciada com o raleamento da vegetação lenhosa no final da estação seca. Nesse caso, como haverá introdução de espécies e não haverá limitação de sombreamento para o crescimento dessas, a densidade deve permanecer entre 150 e 200 árvores por hectare (20% de cobertura). 

O plantio das forrageiras introduzidas deve ser realizado no período chuvoso sem a presença dos animais. O enriquecimento pode ser feito no estrato herbáceo ou no lenhoso. O importante é que sejam introduzidas espécies que apresentem persistência na área. Portanto, sugere-se o uso de espécies perenes. 

Em nível de estrato herbáceo podem ser utilizadas gramíneas como capim-buffel (Cenchrus ciliairis), capim-corrente (Urochloa mocambicensis), capim gramão (Cynodon dactilon), capim digital (Digitaria suazelensis). Para o estrato lenhoso, tanto espécies nativas (sabiá, mororó, quebra-faca) como exóticas (leucena, gliricídia e algaroba) podem ser introduzidas. 

Como podemos perceber através de um planejamento de manejo da vegetação nativa podemos ter e fazer a diferença na manipulação da criação dos animais. Entender do bioma no qual queremos inserir a criação de animais exige acima de tudo este conhecimento mais aprofundado. O aumento na disponibilidade de forragem na caatinga é a intenção deste manejo. 

As características de comportamento de cada espécie que vão ser manipulada devem ser consideradas e permitidas. No caso dos caprinos eles preferem serem criados livres, soltos, podendo ele mesmo perambular em busca de preparar seu cardápio diário. São animais espertos e tem muita facilidade para ultrapassar as cercas e principalmente se existe fartura de alimentos do lado oposto do qual esta inserido. 

Baixos níveis de recursos externos – É uma espécie animal que exige poucos insumos para serem criados, tem uma dieta diversificada aceitando alimentos tanto verdes quanto secos em forma de feno natural e manipulado. 

O CONTROLE DE ECTOPASITAS 

Para avaliar e reduzir o grau de infestação de ectoparasitas e verminoses nos animais são tomadas as seguintes medidas: descanso das pastagens por período de seis meses, homeopatia, tratamentos fitoterápicos à base de Nim (Azadirachta indica) e pó-de-alho, retirada do esterco das instalações e desinfecções periódicas com a cal, creolina e/ou vassoura de fogo. As desverminações com extrato do Nim são realizadas nos animais com número acima a 500 OPG (ovos por grama de fezes). 

ASPECTOS DA CONTENÇÃO DOS CAPRINOS A CAMPO 

É um dos grandes desafios na criação dos caprinos é sua contenção nos espaços selecionados para sua estadia. São animais muito ariscos e necessitam de uma boa cerca para manter os mesmos nos espaços desejados para a sua manipulação. É necessário uma boa cerca e com utilização de tecnologias apropriadas para este manejo. 


É preciso muita preocupação na construção das cercas para os caprinos, pois as mesmas exigem grande quantidade de madeira contribuindo enormemente para o desmatamento da caatinga. Ler texto “Cercando sem desmatar” deste mesmo blog. 



DICAS PARA A CONSTRUÇÃO DAS INSTALAÇÕES PARA OS CAPRINOS 

As instalações devem oferecer economia de uso de mão de obra nas tarefas diárias e facilidade no manejo e controle da sanidade dos animais. Se as instalações não estão atendendo a estas premissas precisa ser repensadas, buscando ao atendimento imediato da mesma. Os apriscos também deve ter planejamento para o armazenamento de forragens para atender as necessidades alimentares nos períodos de escassez  O terreno deve ser de textura bem consistente (duro, pedregoso) e com boa declividade de 2 a 5% para facilitar a drenagem; construída próximo à casa do agricultor; em instalações com área coberta, esta deve ser construída no sentido norte-sul, no maior comprimento. 

As instalações para os caprinos devem atender a certos pré requisitos indispensáveis: 

· Os animais não devem manter contato direto e permanente com as feses; 

· Disponibilidade de água de boa qualidade e não exposta ao sol; 

· As instalações devem ter e oferecer aos animais um conforto térmico adequado para os animais, sombra, solário, sem umidade, ventilado; 


· Que a quantidade de cochos para complementação alimentar seja adequado oferecendo um espaço ideal para cada animal, evitando disputas na hora da alimentação; 

· Que a localização relativa do aprisco leve em conta o gasto com energia durante a visita para o manejo diário, e as áreas de acesso aos piquetes ou qualquer outra área de pasto; 

· O aprisco precisa ter divisões para atender a um manejo de separação animal; 

· Que o design do aprisco seja bastante funcional, facilitando todo o manejo dos animais; 

· A construção do aprisco deve facilitar a retirada do esterco dos animais e demais medidas de limpeza e higienização do espaço; 

ÁREA COBERTA DO APRISCO EM RELAÇÃO A QUANTIDADE DE ANIMAIS 

Área coberta por categoria de animal 

· 1,0 m2/matriz 
· 0,8 m2/jovem de reposição (recria) 
· 0,5 m2/cria. 
· 3,0 m2/reprodutor 

Área Descoberta (curral) 

· Recomenda-se utilizar o dobro da área coberta para cada categoria de animal. 

· Quanto ao piso, deve-se utilizar material que permita uma boa compactação com uma boa drenagem. Escolher uma área com declive em torno de 2 % a 5 %. 

· Recomenda-se, limpeza quinzenal no período seco e diário no período chuvoso. 

· Aconselha-se construir, no compartimento destinado às crias, um estrado de madeira para o piso com ripas de 3,0 cm de largura, espaçado de 1,0 cm entre si, impedindo o acumulo do esterco e facilitando o escoamento. Ver detalhe nas imagens abaixo. Este tipo de piso permite uma grande higiene profilática na criação dos caprinos, podendo também se adequar a criação de outros animais. 



Espero que estas dicas possam contribuir na melhoria efetiva da criação dos caprinos para quem já cria e para aqueles que pretendem iniciar esta atividade. A funcionalidade quando levada em consideração no planejamento contribui de forma significativa no manejo para o sucesso da atividade econômica ou apenas para o consumo familiar. Mão a obra. 

01 de abril de 2013

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